Os Nine Inch Nails e o DJ Boys Noize materializaram as suas colaborações esporádicas na banda Nine Inch Noize e num disco com o mesmo nome. Não sendo especial fã de electrónica, há ali um equilíbrio muito bem conseguido entre músicas pré-existentes e as ‘batidas’ do techno e house.
Aviso: Este texto tem por base a visão de uma fã de Nine Inch Nails (NIN) e do homem que lhe dá vida, Trent Reznor. Até agora, não fazia ideia de quem era Boys Noize. Até achava que era uma banda (!!!), mas não, é uma pessoa apenas, um produtor e DJ de música electrónica, em particular um techno e house mais denso.
A ligação dos NIN à electrónica é que não é nada desconhecida. Apesar de serem considerados precursores do chamado rock industrial, os NIN são, acima de tudo, exploradores e criadores de paisagens sonoras sem uma etiqueta específica e que tanto recorrem à melodia como aos sons artificiais da electrónica. Isso ficou evidente logo desde o primeiro álbum, Pretty Hate Machine, de 1989, mas enquanto o lado mais melódico foi extravasando os próprios NIN, por exemplo, nas premiadas bandas sonoras de Trent Reznor e Atticus Ross (“A Rede Social” ou “Soul”), a ligação à electrónica manteve-se na esfera da banda, como no álbum Hesitation Marks, de 2013. Até agora.
A 17 de abril, dias depois de um concerto no festival de Coachella, nos EUA, foi editado Nine Inch Noize o primeiro álbum dos Nine Inch Noize, o projeto que junta NIN e Boys Noize e que materializa alguns anos de colaborações esporádicas (caso da banda sonora do filme “Tron: Ares”, de 2025.)
Na prática, este disco mais não é do que uma colectânea de temas dos NIN com inputs de Boys Noize, sendo que uns são mais evidentes, como “She’s Gone Away”, “Heresy” ou “Copy of A”, e outros mais subtis, como “Vessel”.
Tal como um amigo meu me disse há uns dias, no que toca aos NIN, eu fiquei nos anos 1990, ou seja, nos discos que balançam entre o rock industrial e as paisagens sonoras mais melódicas. A ligação à electrónica só me entusiasmou quando aparecia mais disfarçada.
Dito isto, os Nine Inch Noize não me entusiasmam assim muito, mas olhando com algum distanciamento emocional, consigo ver ali uma coesão impar, ou seja, há um equilíbrio muito bem conseguido entre músicas pré-existentes, algumas com mais de 30 anos (como Closer e Heresy, as duas de 1994) e as ‘batidas’ do techno e house de Boys Noize. Não estamos, portanto, a falar de pegar numa balada ou numa boa canção e estragá-la com uma batida básica e dançável para a poder usar numa festa de piscina em Ibiza ou numa playlist de loja de roupa ou de centro comercial.
Quem gostou das incursões mais electrónicas dos NIN vai, de certeza, achar este disco interessante. Para mim, é um disco que se ouve bem, mas que cansa. Mas isso é porque, no geral, muito tempo e muitas batidas techno e house cansam-me.
Uma nota curiosa é o tema “Memorabilia”, um original dos Soft Cell e que aparece aqui revisitado com uma roupagem muito mais Boys Noize do que NIN. O tema em si, é bastante mais electrónico do que aquilo que conhecia dos Soft Cell e esta versão, muito mais agressiva (eletronicamente falando), ficou muito bem conseguida.