Um excelente disco de indie-rock com cheiro a 90’s, vindo da Bélgica.
Stoop Kid é o projecto do belga Jens Rubens, que anda há uns anos a criar uma obra discreta mas interessante, e que acaba de dar um passo importante para, eventualmente, ser mais conhecido.
Depois de Camp Careful de 2021 e de Mount Hope, de 2023, agora é a vez de Office Overdue servir de veículo a esta estirpe específica de rock alternativo que faz de Stoop Kid uma espécie de deliciosa máquina do tempo.
As referências estão todas lá, desde o rock slacker dos Pavement, à produção a fazer lembrar coisas dos Eels, num cocktail que nos planta firmemente na segunda metade da década de 90.
Office Overdue acaba por ser um disco simples e fácil de se entrar. Gravado no seu estúdio caseiro, com Jens a gravar praticamente tudo sozinho, o que dá ao conjunto um certo charme de DIY (mas com bom som, felizmente). São dez temas, com apenas um – o excelente “Diet Coke” – a ultrapassar os quatro minutos de duração. São dez vinhetas do dia a dia, letras semi-abstractas mas relacionáveis, tendo como pano de fundo os temas clássicos da alienação e da dificuldade em funcionar num mundo a alta velocidade e que não abranda para ninguém.
Os dois pontos que fazem este disco destacar-se são simples de explicar: o primeiro é esse ambiente 90’s, esse delicioso slacker rock, na composição e na produção (ainda que agradecêssemos um pouco mais de “loucura”); o segundo é a capacidade inventiva nas melodias. Temos aqui riffs e linhas vocais tão cativantes à partida que parecem ter estado décadas à espera de serem inventadas. E isso é sinal de talento, sem dúvida.
O arranque dá-se com “Well oh well”, a lembrar uns Silver Jews mais acelerados; “New to me” começa com uma guitarra lenta mas fraturada, num ambiente narcotizado e irresistível; “The lesson is” é pop-rock soalheira de elevado calibre, dando vontade de saltar para o volante e dar uma longa volta, de vidros em baixo; “In Knot we trust” vai mais atrás, rementendo-nos aos anos 80 (na parte boa, claro), mais uma vez com grande sentido melódico; “Up next” começa com um riff de guitarra a lembrar coisas de Mac DeMarco mas sem ponta de ironia, em mais uma canção bonita feita de sentido pop. Com isto, vamos em metade do disco, sem qualquer tiro ao lado. É obra.
A segunda metade da rodela arranca com “Diet Coke”, que se distingue não apenas pela duração mas porque é a canção mais mutante do disco, parecendo condensar em menos de cinco minutos os vários ambientes presentes em Office Overdue, começando preguiçosa e acelerando ameaçadoramente na segunda parte. “Anywhere but here” é um grande single pop e remete-nos para os primeiros tempos dos Foo Fighters, nos quais a inspiração para fazer memoráveis canções de três minutos ainda dominava.
“Aha Joh” é o tema mais fraco (tinha de haver um, não é?), apenas voz e guitarra num exercício que parece ter ficado inacabado. “Left confined” é uma música lenta, muito bonita e desolada, carregada de cansaço e tristeza. O fecho fica a cargo de “Slump”, uma deliciosa preguiça de sofá que apenas é acordada, ao de leve, por uma guitarra abrasiva que ameaça tomar conta mas depois afinal não. A preguiça é algo que não deve ser perturbada.
Office Overdue é uma bela surpresa e mais um disco que mostra que o rock de guitarras ainda tem caminhos para andar e para nos trazer felicidade. Basta sentido melódico, bom gosto, e um puto belga fechado em casa.