No limiar dos 30 anos, MARO olha para o passado com a serenidade de quem sabe que crescer não precisa de pesar. Em SO MUCH HAS CHANGED, tudo é leve. Um disco sem excessos, escrito de um lugar onde está tudo bem.
Não leves a vida tão a sério. É disso que a leveza fala. Uma leveza que sinto sempre que escuto SO MUCH HAS CHANGED, o novo disco de MARO. Não a leveza ingénua de quem ainda nunca teve de se levantar depois de um tropeção, mas a que nasce precisamente depois dele. Sem dramas. A que aparece quando percebemos que, afinal, também está tudo bem se deixarmos ir o que já não nos serve. A leveza de quem aceita a vida não porque nada pesa, mas porque aprendemos a pousar o peso.
SO MUCH HAS CHANGED foi gravado no Brasil em 2024, durante as únicas três semanas livres da tour. MARO tinha uma ideia bastante clara do que queria fazer e chamou os seus amigos Gabriel Altério, Pedro Altério e Tommaso Taddonio para tocarem bateria, guitarra e teclados, convidando ainda NASAYA, cúmplice recorrente, para ajudar na produção. Chegou com dez canções na bagagem, mas apenas duas resistiram à viagem. Nos primeiros três dias de estúdio, MARO compôs oito novas, entre as quais a faixa-título, que acabou por reorganizar todo o conceito e a direção do álbum a que se propunha.
“So much has changed, what a surprise,
seeing life different with same old eyes.”
É disto que o disco fala. No limiar de fazer 30 anos, MARO escreve a partir de um lugar diferente. E deve haver qualquer coisa profundamente libertadora em ir gravar um álbum já pensado e, a meio do caminho, perceber que afinal ainda não disseste tudo. SO MUCH HAS CHANGED transpira amor-próprio e as suas letras são reflexões serenas sobre a vida, sem dramatismos excessivos. Tal como as canções que ficaram para trás, há pessoas que deixam de convergir, amores que já não podem ser, expectativas que deixam de nos servir ou versões que já não cabem naquilo em que nos transformámos — e está tudo bem. MARO encontrou na composição uma forma de aprender a pousar o peso.
É disto que o disco fala e é a isto que o disco soa. Em SO MUCH HAS CHANGED nada se impõe, tudo flutua. Texturas de eletrónica pop e suaves contratempos de bateria, onde o dedo de NASAYA mais se sente, dão movimento às letras sem as sobrecarregar, enquanto nos derretemos com a voz doce (e ao mesmo tempo salgada) de MARO. Impressiona-me sempre a sua curiosidade estética, tão simples quanto requintada. A naturalidade com que constrói harmonias tão perfeitas, num domínio raro de afinação. Camadas e camadas de linhas de voz que pouco ou nada têm de excessivo, mas que se encaixam como peças de um puzzle. Tudo está exatamente onde precisa de estar.
Talvez a maior qualidade de SO MUCH HAS CHANGED esteja precisamente na sua ausência de pretensão. Não procura reinventar nem transformar a maturidade num espetáculo. Não tem de ser extraordinário, porque vem de um lugar sem remorsos.
“Now we know better, we push it through,
now we are happy, so proud of you.”
A serenidade e a leveza de quem sabe de onde vem e seguirá feliz para onde for. Afinal, a vida é para viver. E para não ser levada tão a sério.