Humbug pode não ter a energia contagiante de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, mas é aqui que a banda prova que não quer viver refém do próprio sucesso e presos ao som da juventude, que se eles cresceram então o seu som cresceu com eles.
O terceiro disco de estúdio dos Arctic Monkeys, Humbug, marca um ponto de viragem decisivo no estilo e na carreira do grupo britânico, acalmando um pouco a impetuosidade e ritmo acelerado da juventude. O grupo apresenta um disco mais calmo, sombrio e denso, enigmático, mas ainda assim cheio de bons riffs e refrões orelhudos.
Produzido maioritariamente por James Ford (produtor de Gorillaz, Klaxons, Foals e até dos Depeche Mode) com contributos essenciais de Josh Homme (Queens of the Stone Age), nota-se uma sonoridade mais adulta, mas também de inspiração americana. A influência de Josh Homme é particularmente audível na forma como as guitarras se arrastam, criando um ambiente a apelar aos desertos americano. O resultado é um som mais quente, stoner, onde o groove importa tanto quanto o riff.
O disco é coeso: “Crying Lightning”, a segunda faixa, surge como uma ponte entre os discos anteriores e o que podemos esperar deste, entre passado e o futuro: mantém um refrão memorável mas apresenta também uma guitarra forte.
“Cornerstone” é talvez o momento mais vulnerável do disco: uma balada estranha, melancólica, onde Turner revela um lado mais humano. Já “Dance Little Liar” e “Fire and the Thud” exploram o lado mais pesado e hipnótico do álbum, com linhas de baixo dominantes e uma tensão constante que nunca chega a explodir por completo. Já “Pretty Visitors” vai buscar a energia explosiva dos discos anteriores.
A fechar, “The Jeweller’s Hands” é longa, repetitiva e inquietante e resume bem o espírito de Humbug: um disco que se torna mais interessante e viciante a cada audição.
Liricamente, Alex Turner abandona o sarcasmo directo dos primeiros discos e opta por construções mais abstratas e até misteriosas. As letras de Humbug são menos sobre pessoas e mais sobre estados de espírito, reforçando o tom introspetivo do disco.
Este é mais um decisivo terceiro disco, como tiveram os The Clash, por exemplo, com London Calling ou, em sentido inverso, os Bloc Party com Intimacy. O terceiro disco é sempre o disco do tudo ou nada. É o disco em que a banda tem de provar se foi um sucesso momentâneo, se vai continuar a fazer o mesmo tipo de música ou se arrisca e tem sucesso.
Humbug é isso mesmo: um álbum que marca uma nova vida para os Arctic Monkeys, uma nova sonoridade e uma nova produção (o grupo mantém a produção de Ford até ao mais recente disco, The Car, de 2022). Sentimos as guitarras arrastadas, uma presença menos frenética, mais adulta, a gestão dos silêncios, os grooves e o stone rock.
Este é um álbum arriscado e maduro. Pode não ter a energia contagiante de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, mas é aqui que a banda prova que não quer viver refém do próprio sucesso e presos ao som da juventude, que se eles cresceram então o seu som cresceu com eles.
Disco de viragem, é o alicerce do lado mais sofisticado e que viria a definir os passos seguintes. Foi recebido com desconfiança, terá talvez até perdido alguns fãs, e é por isso um disco corajoso. E envelheceu bem, com excelentes canções e grande coesão. Talvez não seja o disco mais reconhecido ou o a que voltamos mais vezes mas merece, sem dúvida, um lugar de carinho na nossa memória e retirá-lo da estante e pô-lo novamente a tocar.