Uma evolução na continuidade, reforçando o funkadelismo ansiogénico do álbum de estreia. Os nerds do liceu dançando furiosamente, trucidando as “populares” sem piedade…
A obra dos Talking Heads pode ser, grosso modo, subdividida em dois períodos: 1977-1980 (vanguardista-futurista-pós-punkista, terraplanando os alicerces do rock) e 1983-1988 (assumidamente pop, flirtando com o mainstream, mandando a toalha do experimentalismo ao chão). Confessamos a nossa preferência pela prolífera e inventiva primeira fase: quatro álbuns clássicos, imprescindíveis em qualquer colecção, lançados, de rajada, em três anos.
O disco de estreia, Talking Heads 77, encetou a estética destes anos de ouro: um funk neurótico, dançável mas nervoso, groovy mas gelado. O segundo tomo, More Songs About Buildings and Food, de ’78, já com Eno ao leme da produção, não alterou esta sensibilidade, apenas a aprofundou: o que era funky, sombrio e demente ficou ainda mais funky e escuro e doentio…
Quase todos os álbuns dos Talking Heads têm pelo menos um single assassino, “Psycho Killer” inaugurou o padrão (e perdoem-nos, desde já, o trocadilho de feira). More Songs About Buildings and Food é a única excepção a este respeito. Não nos interpretem mal, “Take Me to the River” é um excelente single mas… não mata ninguém. Se uma compilação se esquecer dele, ninguém dá conta. E, porém, ocupa o centro de gravidade deste LP. O original é de Al Green e é deliciosa a sua promiscuidade entre o profano (um desejo carnal proibido) e o sagrado (a a procura da redenção, lavando os pecados no rio). Um anjo a jogar às cartas com o diabo. Onde o original de Al Green é quente e sadio, a versão dos Talking Heads é fria e tensa. Todo um programa estético, portanto…
A capa – concebida por David Byrne – mostra os quatro Talking Heads de corpo inteiro numa grelha de 23 por 23 quadrados, uma colagem – propositadamente imperfeita – de uma catrefada de polaroids parciais. Todo o seu design denuncia as origens artsy da banda, ex-estudantes de design para quem o rock’n’roll é uma espécie de instalação para o MoMA…
O título do álbum é, na sua autoironia, igualmente revelador. Byrne não escreve sobre sexo ou rebeldia – ou qualquer outro derivado do mesmo arquétipo rock’n’roll pós-Stones – mas sim sobre coisas deliberadamente aborrecidas – e, por isso, subversivas – como aviões e aparelhos de televisão…
Também na forma há uma sublevação contra o cânone rock’n’roll: abaixo o estilo expressivo e poético!, longa vida ao que é lacónico e distanciado!
Veja-se o caso de “Found a Job”. Um casal está no sofá a ver TV. Ele diz: “não está a dar nada”. Ela responde: “nunca está a dar nada”. Neutro emocionalmente como um quadro excel e, no entanto, intuímos um pesado silêncio a formar-se, um quotidiano vazio que se repete, uma angústia indizível que se insinua…
O mesmo sentimento de alienação assoma na misantrópica “The Big Country”, o bonito tema que encerra o disco. Um passageiro, olhando pela janela do avião, tenta reconhecer-se nos lugares que vislumbra, e na sua vida aparentemente simples e feliz, mas não consegue identificar-se: permanece sempre separado e altaneiro, distante como uma fotografia aérea. “Não viveria ali nem que me pagassem”, pensa com asco. A sua incapacidade de se ligar emocionalmente é tão avassaladora que se sente enojado pela própria existência do outro…
E ainda a procissão vai no adro. A paranóia adensa-se em Fear of Music…