Lucy Dacus está de regresso. Fomos delicados com ela, exatamente como ela sempre é connosco, e o que nos ficou foi um certo sentimento de culpa por não termos gostado tanto do disco como gostaríamos.
Lucy Dacus tem novo disco. Depois de três álbuns em nome próprio e das parcerias com Julien Baker e Phoebe Bridgers (Boygenius), eis que surgiu, no passado mês de março, Forever Is a Feeling, com treze temas a estrear. São quase três quartos de hora de composições novas, vindas da norte-americana que nós bem conhecemos e estimamos. Quem fez canções como “I Don’t Wanna Be Funny Anymore” (No Burden, 2016), mas sobretudo “Night Shift” e “Addictions” (Historian, 2018) merecerá sempre o nosso respeito absoluto. Daí a vontade premente de conhecer o novo trabalho de Lucy Dacus, coisa que temos vindo a fazer (a escutar com a devida atenção, entenda-se) nas duas últimas semanas. Chegou, portanto, a hora do veredito Altamont. As próximas linhas encarregar-se-ão desse assunto.
É certo que o coração e os sentimentos que nele batem ditam, muitas vezes, caminhos mais ou menos seguros. É certo ainda que a sensibilidade para os transpor para letras e canções é feito, também muitas vezes, por caminhos ínvios e sinuosos. E nós, os que ouvimos aquilo que nos chega feito e pronto a servir, tantas vezes recostados aos nossos melhores comodismos, ficamos com a fácil tarefa de redigir linhas mais ou menos condenatórias sobre sucessos e fracassos inferidos pelas nossas suscetibilidades. Quem nos seguiu até aqui, já terá percebido que torcemos um bocadinho o nariz ao recentíssimo Forever Is a Feeling. Mas as palavras são o que são, e nem sempre se mostram aos olhos dos outros exatamente da forma como as pensámos. Ou seja, Forever Is a Feeling não é um mau disco, nada disso, nem tal coisa seria possível, vindo de quem vem, mas será o menos interessante que Lucy Dacus fez até hoje. Há algumas canções que o salvam da mediania? Claro que sim! Duas, pelo menos, são capazes de ombrear com as melhores que a menina de Richmond foi capaz de produzir até hoje. Ora vamos lá a elas, assim como às outras, as que quase parecem rodapé das primeiras.
“Big Deal” é candidata a uma das melhores canções do ano. Ponto final. Está lá tudo o que mais gostamos em Lucy Dacus, sobretudo a forma (que parece fácil) empática com que faz derreter corações. Quando damos conta, somos uma poça de sentimentos aos nossos pés. A fragilidade e a beleza dos versos comovem como poucos. Ora vejam lá se isto não é poesia vinda do Olimpo criativo desta girl genius: “Everything comes up to the surface in the end / Even the things we’d rather leave unspoken”. Não só é belo, como verdadeiro. Uma sinopse perfeita do que vai ficando por dizer, quando o jogo complexo dos amores e das paixões nos vai escapando das mãos. Pois, bem sabemos que tudo é sempre tão efémero, sobretudo quando acreditamos que pode durar para sempre… Adiante. Há pouco, referíamos ainda uma outra grande canção de Forever Is a Feeling, e ela é “Come Out”, que confessadamente nos passou, numa primeira audição, uns furos bem abaixo da grandeza que agora lhe atribuímos. É bonita, muito bonita, quase de chorar. O verso “Why am I not wherever you are?” é já um descarado convite à lágrima e ao lenço.
É ainda certo que outros juízos de respeito poderiam ser feitos a “Ankles” ou a “Modigliani”. Ou ainda, para que não sejamos demasiadamente rígidos, a “Bullseye” (cantada a meias com Hozier). E assim, já teríamos material suficiente para uma plena (ou quase plena) satisfação. E ela existe, embora de forma comedida. Talvez falte alguma crueza por entre tantas cordas e harpas e outros instrumentos afins. Talvez seja isso, ou qualquer outra coisa que ainda nos parece estrangeira e que o tempo, se for amigo, encarregar-se-á de nos revelar. Seja como for, e por agora, o que existe já nos faz esboçar um sorriso de contentamento, embora quiséssemos vê-lo mais aberto e radioso.
Por fim, e para terminarmos de mãos e corações dados com Lucy Dacus, há que referir que nas já citadas “Bullseye” e “Big Deal” canta-se, à vez, os seguinte versos: “But I always loved the way you played guitar / You’ve got style, no one’s doin’ it like you are” e “You’re a big deal”. Por isso, terminamos em paz. E será sempre assim, quando pensamos em Lucy Dacus.