São cinco discos, uma mão cheia de aventuras, momentos muito díspares. Mas são também uma aventura que vale a pena percorrer, ouvindo-os.
A frase é banalíssima, cliché perfeito para quem, por vezes, pouco mais tem a dizer. Não haverá verdade mais la paliciana do que esta: ouvir música é uma boa maneira de viajar, sem que tenhamos de sair do lugar onde nos encontramos! Dita assim, e interpretada de forma ligeira, todos tendemos a concordar com esse discurso, naturalmente. No entanto, o que hoje propomos é outra coisa, mais estimulante e curiosa. Passou-nos pela cabeça procurar, sobretudo vasculhando no nosso próprio conhecimento destas coisas dos discos e das canções, álbuns que tratassem desse mesmo assunto (viajar), e que levassem tão a sério esse desiderato, que dele fizessem música a propósito. Viajar de automóvel, de avião, de comboio, de autocarro ou através de uma nave espacial. Viajar, assim mesmo, através da música que nos leva, se assim quisermos, por esses caminhos inventivos e maravilhosos. Tivemos de decidir os que caberiam nesta mão cheia, tentando fugir dos mais óbvios álbuns, mas nem sempre isso foi possível, tendo em conta o brilhantismo do histórico disco em questão. Não vale a pena dizer já qual é, uma vez que descobri-lo-ão sem grande esforço. Agora, nos parágrafos que se seguem, só terão de ter em conta o seguinte: uma vez iniciado o percurso, não poderão sair a meio. Isso e ainda uma última orientação, já que estamos quase a começar: aproveitem para relaxar, mesmo que uma ou outra das viagens propostas possam não ter terminado bem, ou serem um pouco assustadoras, até.
Les Baxter: Space Escapade, 1958

Estávamos em 1958, quando Les Baxter decidiu fazer turismo espacial. Com a sua orquestra, Baxter gravou Space Escapade durante três dias de novembro de 57. Estava feito um disco que ainda hoje se ouve com considerável agrado. Misturando jazz com easy listening e exotica, faixas como “Shooting Star”, “Moonscape” (quando a porta da nova espacial se abre, o que se vê / ouve é algo de deslumbrante, épico, etéreo, agradável e arrepiante), “A Distant Star”, “Somewhere In Space (A Look Back At Earth” ou “The Lady Is Blue” são alguns temas / revelações sonoras da viagem que Les Baxter decide fazer até Saturno. Tudo muito divertido, cheio de groove, bem ao estilo do pianista, arranjador e compositor que muitos ainda hoje amam, figura incontornável de um certo culto do sonoro mundo louco da Exotica. Ouvir Space Escapade faz-nos sentir bem, sobretudo se entrarmos na onda do imaginário proposto, e nos colocarmos à janela da nave espacial para vermos / ouvirmos todo o percurso da viagem, que de tão parca em recursos sonoros (no sentido de ser fácil, de nada parecer sofisticado ou cheio de recursos de grande monta), parece destinada a agradar. Pode ser estranha, a ideia, mas sentimo-nos um pouco como se sentiriam Fred e Wilma Flintstone e Barney e Betty Rubble numa fogosa nave espacial em direção ao infinito. Um gozo muito próprio!
Kraftwerk: Autobahn, 1974

Dezasseis anos depois, os alemães Florian Schneider, Ralf Hütter, Klaus Röder e Wolfgang Flür decidiram aventurar-se nas novas e modernas autoestradas alemãs, fazendo desse percurso uma obra-prima da música do século XX. Quem nunca ouviu, uma vez que seja, o colosso chamado Autobahn, deveria ser penalizado até ao fim dos seus dias, andando eternamente a pé. O disco do quarteto alemão mudou a música pop, fazendo dela uma outra coisa, influenciando músicos até hoje. Um dos primeiros a estar atento a essa longa autoestrada sonora foi David Bowie, como bem se conhece, e todos sabemos o que aconteceu depois desse “encontro”. Quando Autobahn começa, já não há volta a dar, a não ser seguir em frente. Aqueles icónicos sons da porta a fechar, o ruído do motor a funcionar (quando se dá à chave), e a voz em efeito vocoder anunciando “au to bahn” são pura magia! E aí vamos nós, agarrados aos sons e à imaginação que os sons projectam nas nossas cabeças. Vidros abertos, o cotovelo do condutor apoiado na janela, e do outro lado, quiçá, uma alemã louríssima recostada no banco, pernas alçadas e pés de fora, ao sabor do vento da viagem. Tudo isto no eterno Volkswagen, durante 22 minutos e 43 segundos que duram até hoje, na A555 que ligava Bona a Colónia. As outras faixas do disco, na verdade, encetam outras viagens, mas não sobre rodas. Todo o álbum é o avesso do rock que se fazia naquele tempo. É um projeto un-rock n’ roll por completo. Fez um enorme sucesso na estrada do sucesso! Fuck Route 66! We have A555 para toda a eternidade!
Chris Watson: El Tren Fantasma, 2011

Estávamos em 2011, quando Chris Watson decidiu levar-nos a viajar de comboio. Porém, não em um comboio qualquer. Nada disso. Esqueçam composições com o requinte da do Expresso do Oriente, com ou sem Hercule Poirot a bordo. Na verdade, o comboio em causa é, pelos sons em questão, uma locomotiva algo assustadora, como a do romance de Agatha Christie, não fosse ela El Tren Fantasma. Isso mesmo, uma referência fantasmagórica, uma vez que essa linha que atravessava o México, desde Los Mochis, na Costa do Pacífico, até Veracruz, já não existe mais. Ficou a memória e o registo de Chris Watson, ex membro dos Cabaret Voltaire (lembram-se?), ao criar El Tren Fantasma, disco vulgarmente categorizado como field recording. Ouvi-lo, acreditem, é uma aventura que exige perseverança, esforço e resiliência. É uma viagem através de sons de máquinas, de pessoas que falam, mas também de instantes de inquietação e beleza. Tudo aqui é som, mesmo que nos sintamos mais próximos do silêncio do que de qualquer outra coisa. A natureza tem os seus encantos, e quando em confronto ou em paralelo com os ruídos humanos ou os ruídos de máquinas, cria-se algo encantatório, que arrepia, que assenta nos ouvintes e se acomoda, se lhe dermos tempo, espaço e à-vontade suficientes. Marinetti haveria de gostar, sobretudo se fosse possível colocar todo o som dos quase sessenta minutos do álbum em esteróides e de maneira acelerada. E, se assim fosse possível, o engenheiro naval Álvaro de Campos era bem capaz de trocar as águas por estes carris de ferro.
Gilroy Mere: The Green Line, 2017

E eis-nos chegados ao momento mais doce e melódico de todos. Imagine-se o countryside britânico, verde e fresco, lugar de chuvas mansas, mas persistentes. Imagine-se, ainda, gente que viaja por esses lugares que dariam boas paisagens de filmes de época da velha Albion, mesmo que próximos de cidades repletas de gente, que como pequenas formigas humanas, são clientes da icónica Green Line, a linha que ligava Londres a inúmeras cidades do interior. Iniciou-se na década de trinta, e durante muitos e bons anos, a Green Line transportou milhões de passageiros, até que o seu declínio começou a acentuar-se. Hoje, já não existe. Por isso, em memória desses míticos autocarros, Gilroy Mere criou um álbum que é um prazer, não só pelo seu esplendoroso vinil verde (lindo, lindo, lindo), mas também, pois claro, pela delicadeza das suas dez composições. São, todos elas, de uma beleza fora do comum, evocativas de cenários reais, aqui quase mitificados. “Dunroamin’” é divinal, assim como “RLH48”, a roçar o kraut contemplativo. “Hop Pickers” oferece-nos uma certa e particular leveza, quase transcendente. O mesmo acontece com “I Can Sea The Sea From Here”, onde existem sons que parecem ecoar, vindos de outros tempos, de outras décadas. “The Green Line”, a faixa onde a eletrónica mais e melhor se escuta, é soberba, triunfante, capaz de hipnotizar, até que a derradeira “Just Turn for Home” aproxima o disco do folk inglês. Que delirante viagem, esta. Apetece sempre repetir! Não se esqueçam: chama-se The Green Line, o disco.
Laurie Anderson: Amelia, 2024

Percorridos já quatro meios de transporte, e uma vez que iniciámos esta viagem numa nave espacial no seu caminho festivo até Saturno, chegou a vez de voltarmos aos ares, desta vez trágicos, pois foi neles que se perdeu para sempre Amelia Earhart, a pioneira feminina da aviação do século XX. Faleceu a 2 de julho de 1937, quando o seu avião despenhou no Oceano Pacífico. A bordo ia também Fred Noonan, o amigo navegador aventureiro de Amelia. No ano que há pouco findou, Laurie Anderson apresentou-nos a derradeira viagem aérea da dupla mencionada, através de vinte e dois instantes sonoros, pequenas composições de caráter narrativo (ou próximas disso), que nos levam até ao desaparecimento de Earhart. A viagem de circunvalação do mundo terminou de forma não desejada. Laurie Anderson, bem o sabemos, é perita na criação de atmosferas e imaginários repletos de brilhos e escuridões. A sua voz única, frágil, quase ausente, serve de fio condutor para este voo que não chegou ao seu destino. Esteve quase, mas a lei da gravidade foi mais forte do que o sonho. Amelia é um bonito e intenso memorial sonoro, mas também sereno, curiosamente, dos últimos dias da aviadora norte americana. Partiu de Oakland a 17 de março, vindo a desaparecer na data acima mencionada. Os seus desejos iam a bordo de um Lockheed Electra 10E, e não floresceram mais. O mistério que se criou à volta de toda essa aventura aérea é a essência do álbum de Laurie Anderson. É um disco de registos sonoros sombrios, enigmáticos, capazes de com eles sustermos a respiração durante largos momentos. Uma obra inquietante e prazerosa, circulando ao nosso redor.
E assim damos por findas as nossas viagens. Contam-se pelos dedos de uma única mão, mas são bem capazes de fazer com que tenhamos muitos mais dias de alegrias e de surpresas. Este é o ticket to ride que vos oferecemos. Não se façam rogados. Estendam as vossas mãos e os ouvidos, e aceitem estas propostas. Uma coisa é certa: estamos crentes que não haverá enjoos. Ou, se existirem, serão passageiros – se é que nos fazemos entender.