Humanhood, sétimo álbum de estúdio da banda canadiana liderada por Tamara Lindeman, conquista-nos à primeira audição.
Em 2015, em crónica escrita neste obscuro cantinho que é o altamont.pt, Gonçalo Correia escrevia assim:
“Para mim a beleza vale, cada vez mais, por si mesma. Essa é uma das coisas que mais tenho sentido: que há coisas às quais há muito pouco a acrescentar, a apreender (o que implica inevitavelmente um processo de apropriação) ou a explicar: como o último disco de Tamara Lindeman, com o curioso nome artístico The Weather Station.”
Passaram dez anos e esta afirmação mantém-se bastante actual. Sinto precisamente o mesmo, perante a tarefa de colocar para aqui palavras, ordenadas de determinada forma, procurando explicar o que é isto que se sente ao ouvir música (neste caso, especificamente, a música de Weather Station). Sei que, na maioria das vezes, de pouco serve, mas foco-me no importante – levar a que, quem aí esteja desse lado, vá carregar no botão do play ao acabar de ler esta junção de palavras semi aleatórias. Ou que vá a uma qualquer plataforma de música, e coloque o disco numa playlist chamada “Fazer Atenção”. Ou que (esta já requer um alto nível de wishful thinking) encomende o CD ou vinil numa qualquer loja online.
Passaram também quatro anos de Ignorance, o píncaro musical de Weather Station, votado quarto melhor disco do ano de 2021, e que continua a ter uma intensidade assustadora, sempre que vai à caixa de som. Tenho grandes dificuldades em resistir a garotas a cantarem-me ao ouvido, com um desarranjo instrumental à sua volta, como acontece de forma sublime na décima canção do disco, “Irreversible Damage”. Nos últimos anos parece que esta minha fraqueza foi descoberta e tenho tido orgasmos múltiplos com discos da Cassandra Jenkins, da King Hannah, da Beth Orton, e agora, mais uma vez, com Tamara Lindeman. Não sei como raio deixei passar, em 2022, o concerto na Aula Magna (se o arrependimento matasse…)
Humanhood inicia-se com “Descent”, uma peça instrumental que estabelece o ambiente contemplativo, preparando o ouvinte para a jornada emocional que se segue. Logo de seguida, “Neon Signs”, aborda sentimentos de alienação e confusão, com Lindeman a versar sobre a sensação de estar “louca ou apenas preguiçosa”, enquanto tenta compreender um mundo onde as experiências e os desejos parecem meras mercadorias. “Window”, debruça-se sobre sair pela janela para ganhar perspectiva. “Body Moves” é groove sinuoso, órgão marcante e melodia suave. A faixa-título é uma evocação com um ritmo forte, sobre encontrar catarse ao nadar numa praia movimentada. Muita riqueza, como podem ver, adjectivos em catadupa, sensações que ficarão, ou não, com o leitor. Para quem pouco tinha a dizer, o texto já vai longo.
A produção de Humanhood marca pela sua riqueza instrumental, incorporando elementos de jazz e folk, com o claro objectivo de criar uma experiência auditiva intricada e imersiva. Em cima disso, cereja no topo do bolo, a voz de Lindeman permanece como o ponto central, transmitindo a vulnerabilidade e fragilidade que lhe vai na alma. E nós aqui seguimos, como esponjas, para absorver a humanidade que nos entra pelos ouvidos dentro.