Trinta anos depois, chega-nos o mais rico e abrangente disco da carreira de Rafael Toral.
Talvez uma das palavras-chave para descrever a obra de Rafael Toral seja fluxo. Sejam os drones subtis de Aeriola Frequency até aos momentos mais frenéticos do Space Quartet, a sua música cristaliza o presente, convidando-nos a testemunhar cada som, ruído, ritmo ou reverberação com atenção total. Lançado pela editora Moikai de Jim O’Rourke (cuja ressurreição se deve ao lançamento deste álbum) Spectral Evolution é simultaneamente a síntese de tudo o que Toral fez até agora e, possivelmente, o prelúdio de uma nova fase na sua carreira.
Numa entrevista à Tone Glow, o músico compara Spectral Evolution a um jardim, no sentido em que existe um solo harmónico controlado no qual crescem ervas daninhas de forma descontrolada. É uma imagem apropriada para um disco que parece orquestrado até ao milisegundo (e é, como a sua estrutura simétrica o comprova) mas também improvisado segundo o ethos (mas não a estética) do jazz. Move-se de forma simultaneamente glaciar e eflorescente. Esta influência do jazz é assumida desde o início pelo músico, que nomeia as Rhythm changes e “Take the ‘A’ Train” como pontos de partida para alguns andamentos do álbum.
O álbum começa, inesperadamente, com uma guitarra a tocar um acorde de sétima, enquanto um instrumento eletrónico (como o MS-2 ou o MT-10 modificados que caracterizam os trabalhos mais recentes do músico) flutua por cima, um timbre que já nos é familiar na discografia de Toral, mas com um controlo que ainda não tínhamos visto. Em algumas partes conseguimos ouvir uma guitarra ambiental que remete para as experiências Eno-escas de Sound Mind Sound Body. Noutras, ouvimos os glissandos errantes (e não erráticos) inaugurados em Space. É um disco denso e detalhado, mesmo nos seus momentos mais contidos, como a atmosfera noturna e pantanosa de “First Long Space” ou nas cintilações majestosas de “Second Short Space”. No seu melhor, a música banha-nos na sua nuvem caleidoscópica: “Fifths Twice” o andamento que parte o disco em dois, assemelha-se a uma Torre de Babel sónica, os seus acordes a sobreporem-se numa cadência que se ergue em direção aos céus.
Spectral Evolution é o culminar da carreira de Toral, um disco que resultou de mais de trinta anos de pesquisa incansável e que encerra em si quase todos os caminhos que o músico percorreu até agora. Se isto é a semente que originará a fase seguinte da sua carreira, não sabemos ainda. De qualquer modo, os nossos ouvidos estão colados ao espaço, ao céu e à terra.