Passados 30 anos após a explosão da Britpop, onda em que os Kula Shaker também surfaram, a banda de Crispian Mills surge revigorada, divertida e com a noção exacta do seu lugar no panorama musical actual. Um grupo que já provou o seu valor, que nos deu uma boa quantidade de hits e que continua o seu caminho, sem estar preocupado com modinhas ou revivalismos bacocos e clichés.
Aos primeiros instantes de “Gaslightning”, primeira faixa que abre Natural Magick, somos rapidamente transportados para o universo de Kula Shaker. O virar do sintonizador do velho rádio passando pelos pedaços de som que influenciam a banda, onde podemos descortinar sons vindos directamente da Índia, incluindo o de elefantes, desaguando na guitarra e na voz característica de Crispian Mills a declamar, qual Gil Scott Heron, sobre o som da revolução mostram-nos uma coisa óbvia: o conjunto, surgido no pico da Britpop ainda resiste e, desta vez, até veio com todos os seus elementos fundadores.
Ausente durante vários, o teclista Jay Darlington regressa, finalmente, ao lugar que sempre foi seu. Aquando da separação dos Kula Shaker, em 1999, após Peasants, Pigs & Astronauts, Jay aceita o convite dos irmãos Gallagher e junta-se à banda de digressão dos Oasis até 2009, ano que marcou o fim da banda de Manchester. Daí até aos dias de hoje, Darlington actuou com os velhinhos psicadélicos Fleur de Lys e os Magic Bus. O seu regresso aos Kula Shaker traz de volta o seu teclado místico e etéreo, que tanto influenciou o som dos dois primeiros álbuns do grupo.
Ainda “Gaslightning” vibra nos nossos ouvidos e já “Waves” mostra claramente como Mills não perdeu a capacidade de criar canções pop com a espiritualidade de sempre. Um dos pontos altos do álbum, que vai continuando sem perder ritmo, é “Natural Magick”, música cheia de groove, órgão hipnótico, como se de um mantra se tratasse, com referências a canções psicadélicas do passado. À quarta canção, os Kula Shaker parecem fazer uma homenagem aos Traveling Wilburys e ao velho faroeste com “Indian Record Player”, Onde o oeste se encontra com o Este.
Se nas canções anteriores o som ocidental ainda era o que marcava mais o compasso, em “Chura Liya (You Stole My Heart)” faz-se o inverso. Mills continua a ser um apaixonado pela cultura hindu e continua a fazer canções belíssimas, cheias de emoção e sentimento. Esta faixa é uma adaptação de uma sequência de um filme de Bollywood, dos anos 70. O dueto que faz com a cantora bangladeshiana Laboni Barua seja um dos pontos altos de toda a carreira da banda inglesa.
A sexta faixa, “Something Dangerous”, poderia fazer parte do disco Beatles for Sale, se os quatro de Liverpool já tivessem descoberto o poder criativo da erva. Natural Magick tem o seu momento mais calmo, a sua balada country, com “Stay With Me Tonight”, com a participação de Alanoud Gigante.
Com o aproximar do terço final do álbum, os Kula Shaker voltam ao imaginário hindu com “Happy Birthday”, onde a tabla, instrumento indiano, é a força motora da música. No entanto, essa lado mais místico é interrompido rapidamente quando Mills retoma o seu lado político e activista que começou na primeira música. “Idontwannapaymytaxes” e “F-Bombs” não dão tréguas a políticos corruptos e adeptos da guerra. A palavra ‘Fuck’ é empregue na dose certa. Das Nações Unidas ao Rei de Inglaterra, passando pelo KKK e pelas estações de televisão, todos levam, e bem, por tabela, por este mundo constantemente em guerra.
Após este momento mais nervoso, as últimas três canções: “Whistle and I Will Come”, uma balada de amor eterno; “Kalifornia Blues”, com uma introdução de uma assistente bordo a fazer discurso de chegada a Londres, vindos de Los Angeles. A canção tem letra e melodia delicodoces, relatando uma desilusão da vida na Costa Oeste Norte americana. Natural Magick fecha com “Give Me Tomorrow”, uma balada tipo início dos anos 60, onde a guitarra slide faz a homenagem a um dos grandes heróis de Crispian Mills, George Harrison.
O sexto disco dos Kula Shaker, menos pincelado pela cultura hindu do que os do início da sua carreira, mostra uma banda confortável consigo própria, coesa e com belas canções. Não mais Crispian Mills e companhia estarão no topo do mundo como estiveram nos anos loucos da Britpop, não mais encherão salas enormes ou como cabeças de cartaz de festivais. No entanto, desde 1999 que a banda não estava tão confiante e segura. Quase trinta anos após a estreia, é de saudar o seu regresso. Que não mais se voltem a separar.