E eis que, de novo, somos tentados pelo doce prazer da carne. Chega-nos fresquíssima, fatiada em dez suculentas canções e dá pelo expressivo nome de Cererê.
Os Carne Doce nunca param. Nunca pararam. Reiventam-se no largo trilho da nova música brasileira e lá vão eles, pisando terrenos sempre férteis e viçosos. O Altamont acompanha esse caminho desde os primeiros momentos, e sempre que olhamos para trás conseguimos ver que a banda não deu passos em falso. Firmes, vigorosos e apontando para diferentes espaços sonoros (embora nunca perdendo a sua identidade original), os sons da banda estão cada vez mais maduros, cada vez mais suculentos, cada vez melhores. Beauty in motion, é o que apetece dizer sobre uma das melhores bandas do atual Brasil e que já existe desde o início da segunda década deste nosso tempo. E assim, à laia de uma breve introdução ao seu recentíssimo Cererê (tão recente que saiu exatamente hoje), resta-nos dizer duas coisas: saudar calorosamente o seu regresso, e fazer votos para que regressem de facto, em carne e osso, aos palcos nacionais. Rever e ouvir os Carne Doce é um claríssimo prazer, e faz sempre parte do nosso menua uditivo preferencial.
Fazendo a contagem, são já cinco os álbuns dos Carne Doce. Em todos eles, na verdade, há continuidade e alguma parcela de novidade somada, tendo sempre em conta o anterior. É essa a sua identidade indie-rock-soul-goianiense, de braços abertos e prontos para receber o mundo.
“Noite dos Tristes” abre o disco e é a faixa de apresentação de Cererê, palavra que designa um importante espaço de Goiânia, o Centro Cultural Martim Cererê, que já viu nascer muitos artistas e produtores brasileiros. A faixa é dançante, parecendo um pavão de cor e ritmo que se espraia pelo ar, exigindo companhia de pés e ancas por parte de quem a escuta. Aquele baixo de Aderson Maia e aquela bateria de Fred Valle logo a abrir, não enganam. Desde esses primeiros segundos, a rendição é absoluta. E quando ouvimos atentamente o poema feito e cantado por Salma Jô, a faixa melhora. E muito. Há nela, na letra, a transformação típica que certos momentos comportam, quando saímos à noite, por exemplo, para nos entregarmos ao prazer de ouvir música, de dançar, fintando a tristeza que a vida tantas vezes nos obriga a engolir. Já “Cererê”, a faixa que empresta o título ao longa duração, é mais contida, uma quase balada que, afinal, não nos faz “cara de mau”, como faziam muitos daqueles que iam mostrando essa pose tão rock n’ roll a caminho do já referido Centro Cultural. Com “Suspiro”, o tom torna-se mais vagueante, mais ondulante, misterioso até. A guitarra de Macloys Aquino vai pontuando a melodia, dando-lhe um fraseado elegante e irresistível, abrindo caminho para as suaves electrónicas (João Victor Santana) de “Latada”, balada de enganos cantados, de fingimentos, de falta de crença nas coisas do coração. Atmosférica e sonhadora, “Metagreste” assume-se, ao fechar a primeira metade do vinil (é a quinta faixa de dez, pelo que julgamos ser a que finda o Lado A de Cererê) como descaradamente bonita, serena, com “filtros, telas” que lhe conferem uma graça ainda mais particular. “Na Lona”, o tema seguinte, poderia ser uma sequela da anterior, parecem quase gémeas na elegância e na finura dos seus jeitos. Continuando, na tentativa de definir, mesmo que parcamente, cada tema de Cererê, “Festa” não é tão festiva assim, mas carrega um pouco mais no pedal do ritmo, acelera de mansinho e faz correr um extra de adrenalina rítmica, vibra e mostra que tá no jogo. “Trago” traz “fogo no rabo”, é gingona e apela à “chama” dos namorados que se incendeiam facilmente, quando a sedução vai começando a revelar os seus mais íntimos propósitos. “Na Bad” aproxima-nos do fim de Cererê e ajuda a cimentar a ideia de que este é um disco de enorme coesão, em que todas as canções guardam em si mesmas um particular cordão umbilical que lhes confere uma vida muito própria, como se todas elas fossem extensões umas das outras, emprestando-se mutuamente enleios e modos de ser e de estar concordantes. E, por fim, “Despedida” chega anunciando o inevitável, mesmo que queiramos voltar as costas à hora de partir, mesmo que façamos finca-pé e nos recusemos a dizer adeus. Mas a verdade tem um peso irrecusável, tudo tem um fim, e a saudade que começa a brotar mesmo antes do momento derradeiro, já se manifesta, ela existe bubbling under e nisso vai uma certa dor e um certo prazer por via de “Tudo isso que acabou de acontecer”. Não poderia haver melhor e mais perfeita maneira de terminar Cererê.
Cererê talvez seja o disco mais adulto dos Carne Doce, o que acaba por ser perfeitamente natural, uma vez que já andam neste mundo da música há algum tempo. Todas as canções respiram maturidade, parecem afirmar-se sem quaisquer pressas, deixam-se estar como estão e como são, seguras e confiantes de si mesmas. Há um certo minimalismo nos arranjos e na produção que acentuam a vertente mais madura das composições. A voz de Salma Jô, marca distintiva e original da banda, mistura veludo e mel em doses seguras e certas. Cererê é um lugar onde o tempo parece parar para que melhor o possamos viver. Cererê é um triunfo sereno, um estado de alma onde apetece encostar o corpo e esboçar aquele sorriso típico que só se desenha nos lábios quando nos sentimos plenos e felizes.