Uma compilação para tentar colmatar, de algum modo, o vazio enorme de uma legião de fãs que salivavam pelo terceiro álbum dos Ornatos.
Depois d’ O Monstro Precisa de Amigos, os Ornatos Violeta alargaram o seu público, deixaram de ser tanto uma banda de nicho e, embora sem se tornarem banda de estádio, viram a sua música chegar a bastante mais sítios do que tinha chegado com o Cão. Além de novos fãs, conquistaram também a crítica e inscreveram definitivamente o seu nome no panteão nacional.
Estava tudo a correr bem, ou pelo menos assim pensávamos, mas afinal, em 2001, decidem sair de cena, iniciando um mito sebastiânico em torno do terceiro disco. Chegou a ser feito? Gravaram alguma coisa? Será que as canções existem, e podemos pegar nelas e editá-las nós? Se gravaram, por que raio não editam? Enfim, adensaram-se as dúvidas e interrogações nos corações doridos de uma absoluta minoria de fãs, mais do que fãs, amantes, gente que dava a vida por mais um disco, por mais um concerto dos Ornatos, por uma melena de cabelo do Manel Cruz.
É que foi mesmo um momento doloroso e injustificável para quem estava deste lado, porra, não nos podem fazer isto, estávamos a construir uma coisa tão bela, estávamos mesmo no auge da paixão, não nos podem deixar a meio do acto. Mais ainda com esse fantasma do terceiro disco, que supostamente até tinha nome – dizem que o título provisório era Monte Elvis – raios parta, isto é mesmo acabar em vírgula!
Durante os anos que se seguiram ao fim dos Ornatos os rumores e especulações continuaram, mas nada de música nova. Eles seguiram os seus caminhos, com bandas novas ou discos a solo, atirando mais terra para cima do caixão Ornato. Mas, com todo o respeito por todos eles enquanto indivíduos e músicos e autores de outras canções, nada disso compensa a ânsia de ouvir música nova feita por aqueles cinco rapazes. Deixaram-nos à míngua durante mais de dez anos, e a cada dia que passava, o culto aumentava.
Até que em 2011, perpassando o nevoeiro que afinal não era tão denso assim, eis que chega a boa nova: um disco de temas raros e outros nunca editados. Que, talvez mais por razões sentimentais, soa muitíssimo bem e vale por si só enquanto álbum, não é só um depósito de sobras.
São nove músicas, quase todas gravadas por volta da mesma altura (1998 e 99), tirando “Dez Lamúrias Por Gole”, que tinha saído em 1995 numa compilação da revista Ritual, e “Pára-me Agora”, gravada em 2001 e feita deliberadamente para o tal terceiro disco.
Há ainda algumas que saíram das sessões d’O Monstro mas não entraram nesse álbum (as inéditas “Como Afundar”, “Há-de Encarnar”, “Devagar”, “Rio de Raiva”), todas mais a cair no campo de baladas e, diga-se, ainda bem que não entraram n’O Monstro Precisa de Amigos.
Este álbum inclui também a belíssima versão de “Circo de Feras”, tema que entrou no disco de tributo aos Xutos e Pontapés XX Anos, XX Bandas, em 1999, e que é um passo arriscado mas bem sucedido, pegar numa canção imaculada.
Outra que já tinha saído numa compilação é “Tempo de Nascer”, que entrou na colectânea Tejo Beat em 1998 e que é, neste Inéditos/Raridades, a canção mais ornatesca e que – vista agora, à distância – está no sítio perfeito entre o Cão e o Monstro.
Destaque ainda para “Marta”, que originalmente era o lado B do single “Ouvi Dizer”, mas que na verdade é a canção irmã de “Raquel” (que encerra o “Cão”).
Quando chegamos ao fim deste disco, seja em que época for, claro que nunca ficamos sem o amargo de boca causado pela inexistência do terceiro álbum de originais dos Ornatos que tivesse dado à banda uma outra carreira, mas também não saímos nada defraudados. Este disco é um presente para os fãs indefectíveis, uma oferenda de carinho, de uma banda que, por múltiplas razões, não pôde dar-nos o tal Monte Elvis. Então, chegamos ao fim de Inéditos/Raridades e saímos com um sorriso sereno de quem aceita que, se calhar, foi melhor acabar assim.