Lançado pouco depois do início deste nosso querido 2014 (Março), Singles chegou ao de leve, sem grandes confusões. Tudo com calma e ponderação até que houve a atuação no talk show americano de David Letterman. Num cenário simples, com holofotes azuis a criarem o clima, o concerto que o quarteto deu, catapultou-os para uma estratosfera que até à altura nem tinha sequer cheirado. O vídeo tornou-se viral, os grandes concertos multiplicaram-se e assim, desta forma tão simples, uma banda com 11 anos de existência quase obscura, atingiu o nível de reconhecimento que merece.A instrumentalização é bastante simples e maioritariamente inorgânica. Os sintetizadores ofuscam as outras secções musicais com uma toada muito leve, etérea quase, sempre bastante alegre e ritmada, fazendo algumas vezes lembrar o mundo mágico dos Beach House. Depois há a voz… Todo o álbum é uma viagem pela efervescência emocional de Herring (letrista do grupo, para além de voz) e é por isso mesmo que tudo isto que se ouve ganha o peso que tem.
17. Have A Nice Life – The Unnatural World
The Unnatural World é o segundo longa-duração deste duo de Conneticut, um esforço longo que mantém a identidade criada com Deathconsciousness (2008), consolidada nesta mão cheia de anos que durou a gestação do sucessor que este ano nos chegou. queriamos dizer-vos, para simplificar, que os Have A Nice Life são shoegaze, mas é mentira, ou melhor, não chega. Se não, reparem se «Defenestration Song» não está carregada de pós-punk, com a bateria seca mas a encher todo o tema, e a guitarra a marcar presença com discrição mas cheia de personalidade e a apoderar-se dos nossos ouvidos. A dificuldade em enquadrar a música dos Have A Nice Life não podia ser mais elogiosa, porque em última análise será um reflexo do processo de composição e criação a que a banda se propõe. É isto que torna este shoegaze único e é por isso que neste género, os Have A Nice Life fizeram o álbum do ano.
Os Real Estate são uma adorável banda de New Jersey, que não soa nada a Bruce Springsteen. Andam nisto desde 2009, em termos de discos, com a estreia homónima, que fez a Pitchfork apaixonar-se pelo som leve e cândido da banda. Foi com Days, de 2011, que a banda deu o salto em frente no que toca ao mainstream. E pode dizer-se que foi esse disco que, de alguma forma, cristalizou o som dos Real Estate: guitarras jangly a la Byrds, um flirt com um som de praia mais Drums que Beach Boys, letras simples mas bem construídas. E é isso que Atlas nos trouxe, em nova dose. Um disco pop leve, doce e de impecável bom gosto. Se não é destacada qualquer música é que isso, de facto, é uma dificuldade. E ilustra uma das fragilidades não apenas deste álbum mas desta banda: têm um som e um universo característico, e todas as canções estão encharcadas nesse caldo Real Estate, fazendo com que não se distingam particularmente umas das outras.
Cruzamento entre rock rendilhado e cuidado e eletrónica gingante mas introspetiva, 8, disco instrumental, é triunfante, liga pouco a rótulos e é a banda sonora perfeita de uma viagem de 40 minutos com partida a norte, de onde a banda vem, e destino incerto. As cavalgadas de «AFG» e «Sob Evariste Dibo», ali a meio da jornada, são destaques maiores, mas não únicos. 8 são oito canções numa só, compêndio coeso e rijo que atesta que os Sensible Soccers são mais do que banda de temas e momentos dispersos. Os Sensible Soccers são já um fenómeno de culto. Amados por muitos, odiados por alguns, caminham seguros e determinados. Estrada fora, rumo à via láctea.
14. Run The Jewels – Run The Jewels 2
Mordaz. Não é que Run the Jewels 2 seja paranóia, violência, mas sim o inverso. É hostil porquanto impetuosas são as texturas e refinada é a ambiência, é sofisticado pelo vigor e pela ousadia. Faz-lhe parte o esforço abrasivo que ressoa pela asperidão de Death Grips, as boçais líricas de rebelião de ScHoolboy Q; ainda assim, o rap fértil amalgama o pânico e urge a intenção performativa de Killer Mike e EL, de entendimento inegável, de que não há inquietude que escape, enclausurada na eloquência de «Crown» ou no estouro agressivo de «All Due Respect». Adjudica qualquer faixa a devassidão enquanto distinta e apropriada, e sedução é essa que deslumbra e vicia e impõe o álbum numa escala à parte dos demais.
13. Thurston Moore – The Next Day
The Best Day lembra (às vezes em demasia) um dos melhores álbuns dos SY, Murray Street. Ao contrário de todos os outros, Murray Street foi precisamente arquitectado em solidão por Thurston numa guitarra acústica. Ora The Best Day também, segundo o próprio. Lembra a máxima de Lou Reed dos tempos dos The Velvet Underground: «mais que um acorde é acorde a mais». A reverberação de um acorde em loop, de ir registando subtilezas de variações, às vezes introduzidas pelo músico, outras pela nossa imaginação. Uma estrutura primária onde tudo o resto se agarra e o pensamento se evade. Thurston não se esquece contudo que rock é pujança e também para isso não dispensa o Steve Shelley, que lhe atira com a força e inteligência do costume. Thurston não receia ser um sénior armado em rocker. É o total oposto das cirurgias plásticas do Mick Jagger, alimentadas pelo desejo revivalista da desesperada classe media, que agora até pode colocar fotos no Facebook da sua presença no respectivo concerto, blusão de ganga e tudo.
12. Ariel Pink – pom pom
O novo trabalho de Ariel Pink, pom pom, é uma explosão de esquisitice. Em bom. Desde a capa do álbum duplo (são 17 faixas), cor de rosa tom de pastilha elástica, passando pelo nome – pom pom? Diz tudo – e seguindo para a sonoridade, nome das músicas e letras. Ariel Pink, neste décimo trabalho de estúdio (embora seja o primeiro em nome próprio, sem a banda The Haunted Graffiti), fez tudo o que lhe apeteceu, por mais nonsense ou idiota que parecesse. A começar logo com “Plastic Raincoats in The Pig Parade”, uma fanfarra cheia de efeitos, sintetizadores e quase carnavalesco, sobretudo no refrão. O tema apresenta perfeitamente o álbum, marcando o tom e avisando quem, incauto, experimenta a audição pela primeira vez: neste disco tudo é possível, incluindo sons de caixa de música, vozes infantis, manequins assustados e relinchar de cavalos. Tudo isto na primeira faixa. O disco acaba por soar a uma explosão de cores e sons, carnaval e muita irreverência. Não é de espantar um trabalho destes vindo de Ariel Pink mas é de gabar a coragem. E, acima de tudo, o resultado: a dificuldade num disco destes é encontrar o equilíbrio e pom pom consegue-o na perfeição.
11. Capitão Fausto – Pesar o Sol
A 20 de Maio de 1498, chegava Vasco da Gama à Índia. Em 1572, Camões imortalizava essa viagem n’Os Lusíadas. Feita por um Capitão diferente do de há quinhentos anos, Pesar O Sol soa também a epopeia. Só que, nesta, a armada não é feita de caravelas. Se há coisa que existe em Pesar O Sol é uma reflexão acompanhada de conselhos. De uns Capitão Fausto que já não são osmiúdos de há uns anos, mas sim uma banda matura, com corpo forte, a assumir-se mais uma vez como uma das mais promissoras do país e – podemos arriscar – da Europa. Além de toda a fábula moral que os Capitão Fausto escreveram, o disco é – perdoando o lugar comum – uma lufada de ar fresco no panorama musical nacional. São eles os embaixadores do psicadelismo português e a banda que faltava. Do início ao fim, o álbum é uma constante viagem, feliz e despreocupada. É uma corrida de guitarradas desenfreadas que prova que para os Capitão Fausto não importa quão grande ou pesado o Sol seja: o Sol é leve.
Parabéns ao altamont por tudo. Site excepcional feito por melomanos para melomános. Hoje em dia faz-se música com grande qualidade, mas nunca esta foi tão efémera e perene. Já se sabe que os meios de audição permitem a massificação, que as novas gerações ouvens músicas e não albúns, e mesmo as músicas raramente de príncipio ao fim. Trintão entradote, sou de outro tempo, e vejo a música como arte e não imagino outro conceito que não seja o de albúm. Doq ue ouvo que consta nessa lista: Fico contente pela consagração do MArk Kozelec. O tipo é uma besta, deprimido, bipolar e depressivo, mas é um músico excepcional. Fã hardcore dos Red House Painters nunca percebi na altura porque é o homem não era celebrado como um dos maiores génios do universo. Com outras encarnações vejo-o finalmente a obter o reconhecimento que a sua prolífica e brilhante carreira justifica. O Benji é um disco fabuloso, não pelas melodias mas pelo story-telling crú e despejado de atificios. Pelas histórias pessoas retratadas com uma frieza tão frontal, sem barreiras, sem sofismas. Obra de arte que perdurará. O War on Drugs é engraçado, mas não percebo o hype. Soa-me a Mike Scott a solo requentado. A FKA tem aparecido em muitas listas. A míuda canta bem, vê-se que há marketing sério a insuflar a coisa, mas não me convence. Comparaçãoes com Portishead então…. Os albuns do Beck e do Albarn são óptimos e estão a anos luz do pastiche indie do DeMArco. O Run the Jweels para mim não é bem música. O melhor albúm que ouvi este ano foi dos Twilight Sad que em Portugal não parecem existir, assim como o Nick Talbot dos GranvenHusrt que faleceu sem que ninguém tivesse dado por isso. Foi um ano morno musicalmente falando, mau se contarmos que os U2 lançaram um vírus. Bom 2015. Continuem!
um reparo: o “2” não é o álbum de estreia do Mac deMarco, mas sim o “Rock And Roll Nightclub”. De resto, bom top! (embora Capitão Fausto devesse estar no top 3 :D)