Um disco que tem tudo o que são os Yo La Tengo, encapsulados em 70 minutos de música de alto gabarito, como só eles mesmo sabem fazer.
Dou voltas e voltas a este disco, mas continua a ser difícil agarrar o ponto por onde começar esta crítica (ou crónica, ou texto, a palavra inglesa para este exercício que aqui fazemos no Altamont – review – parece sempre mais acertada que as traduções sugeridas nas variadas páginas de internet que consultei, chatgpt incluído (desculpem colónias de caranguejos), mas não comeces a protelar Alex, isto é só o teu cérebro a querer fugir do verdadeiro motivo porque aqui estamos, queres me enganar, te enganar ou nos enganar?).
Falar sobre a minha banda é sempre um exercício que me deixa apreensivo, na medida em que tento ser racional, entender que desse lado estão pessoas que não têm o envolvimento emocional que eu tenho, muitos possivelmente conhecerão mal os Yo La Tengo (e conseguem viver mesmo assim) e “God i’m very, very frightened, i’ll overdo it” (lá está ele a juntar palavras em inglês às de português, porque, pobre coitado, não consegue encontrar palavras no dicionário para explicar o seu sentimento na sua língua materna, e quer dar ares ao usar o inglês e mostrar que estudou no Cambridge, só para dizer que tem medo de exagerar na doutrinação yolatenguiana e afugentar os leitores, afinal é fácil escrever em português estás a ver?).
(Respira)
(Para de usar a bengala dos parêntesis)
(Descreve só a coisa e depois deixa para o lado de lá a decisão de irem ouvir este Popular Songs, ou qualquer outro álbum dos Yo La Tengo, ou qualquer outra música que quiserem)
Lançado em 2009, Popular Songs é o décimo segundo e um dos discos mais ambiciosos dos Yo La Tengo. O trio de Hoboken é conhecido por transitar entre delicadeza pop, experimentação e longas passagens instrumentais, e neste disco isso está tudo muito bem reflectido. O título é claramente irónico: em vez de uma coleção óbvia de hits, o álbum reúne canções que brincam com a ideia de “popularidade” enquanto exploram diferentes tradições musicais.
Foi o primeiro que fui ouvir assim que saiu, uma vez que os tinha descoberto apenas uns anos antes, através de I Am Not Afraid Of You And I Will Beat Your Ass. E esteve, desde o início, à altura das expectativas. A abertura, com “Here to Fall”, mostra o grupo na sua face mais grandiosa, com arranjos de cordas a lembrar bandas sonoras de filmes dos anos 70 e uma batida quase hipnótica. Em seguida, “Avalon or Someone Very Similar” evoca o espírito pop psicadélico, como se os Beach Boys se tivessem infiltrado num ensaio de uma qualquer banda indie. Já “By Two’s”, cantada por Georgia Hubley, traz uma atmosfera intimista e quase sussurrada, que remete às baladas minimalistas explorada em canções icónicas anteriores, como “Autumn Sweater” ou “My Little Corner of the World”.
Uma das faixas mais pujantes é “Nothing to Hide”, onde as guitarras se fazem ouvir, garage rock abrasivo e sem travões – será a “Motel 6” deste álbum. É um dos momentos mais diretos de Popular Songs, a fazer lembrar uns Big Star ou até uns Teenage Fanclub. “Periodically Double or Triple”, por sua vez, traz uma pulsação funk-soul com teclados brincalhões e letra espirituosa, quase uma paródia de canção dançante, mas com aquele humor característico do grupo – Ira arranca a canção com “Never read Proust / seems a little too long / Never used a hammer / without somehow using it wrong”.
As influências são omnipresentes e diversas nos Yo La Tengo – mais adiante, “If It’s True” homenageia a tradição do soul de Filadélfia, com arranjos de metais e vocais doces que parecem retirados de um single dos anos 60. Já “I’m on My Way” exibe o lado folk melódico da banda, suave e melancólica, instrumentação contida, deliciosa na sua letra:
I’ll use my imagination
As much as I can
But all I can think of is you
Can I hold your hand?
O disco, no entanto, ganha proporções ainda mais ousadas no final. As três últimas faixas ultrapassam os dez minutos cada: “More Stars Than There Are in Heaven”, “The Fireside” e “And the Glitter Is Gone”. Nelas, o trio mergulha em longos drones de guitarra, improvisos e camadas repetitivas que remetem tanto a uns Velvet Underground, quanto ao minimalismo de La Monte Young. É como se o grupo abrisse um portal entre a canção pop e a exploração sonora sem limites, e nos convencesse a entrar, sem saber onde e como iremos de lá sair.
Popular Songs funciona, assim, como um catálogo afetivo: da canção pop clássica ao ruído abstrato, passando por soul, funk e balada introspectiva. Em vez de escolher um único caminho, os Yo La Tengo celebram a diversidade de sons que moldaram a sua identidade, e entregam mais um grande disco, que encaixa como uma luva numa carreira de outros grandes discos.
(Vês, eu disse que tu conseguias. Bom trabalho, Alex)