Voltaram ao registo longa duração, e em boa hora os acolhemos. 2, dos Yakuza, figura como um dos melhores discos nacionais do ano que está quase a chegar ao fim.
Já os conhecemos há muito. Estiveram connosco, no nosso Top Nacional de 2020, com Aileron, e receberam a nossa medalha de bronze, galardão de muita estima e consideração. Voltaram agora com um novo trabalho, os Yakuza, merecendo, uma vez mais, a nossa maior atenção. 2 é o título do novo jazz bem mais que jazz dos amigos Afonso Serro, André Santos, Pedro Nobre e Pedro Ferreira. Na verdade, como são algo mutantes, os Yakuza são um trio, que por vezes estende-se a mais um elemento. Se não for exatamente assim, talvez não seja grave o erro, talvez o próprio coletivo nos conceda perdão.
Uma coisa é certa, e aí não há margem de erro: 2 é um ótimo disco de jazz urbano, parecendo próximo dos sons do nu jazz londrino dos anos 90, embora aqui se apresente mais viajante, ainda mais capaz de construir imagens por onde a música os vai levando, pequenos instantes fotográficos (mas em movimento), momentos de inegável beleza artística.
Lançado no final do mês de outro passado, 2 divide-se em dez momentos, começando pelo caminhar lento e introspectivo de “Penha” e acabando com “Meia Dose” de fusão em camadas que parecem algo perdidas, mas que vão ganhando corpo e sentido sonoros na sua pequena extensão de tempo, daí o título do tema. Pelo meio, há temas algo dançantes, como “Manilha”, que não sendo um ás de trunfo, tem valia suficiente para nos manter em sentido. O momento free do final da faixa é maravilhoso! Mas há mais coisas, neste segundo apanhado do coletivo, desde logo “Truque di Mente”, que talvez tenha epicentro sonoro em Cabo Verde (a julgar pelo nome da faixa), embora desse arquipélago diste muitas e muitas milhas sonoras. É, como quase sempre, um mosaico que inflete e reflete o que vai na alma do trio, capaz de ser esponja suficiente para absorver ritmos onde eles possam insinuar-se. O mesmo acontece com “Partido Alto”, outro nome enganoso, pois ao lermos o título talvez sejamos levados a pensar nesse tão particular estilo de samba do nosso país irmão transatlântico. “Partido Alto” é dos temas mais intrigantes de 2, marcado por um forte e vigoroso encadeamento que parece perdido, mas que se vai encontrando a cada esquina por onde passa. Tema sinuoso, como todo o álbum, aliás, mas de grande impacto, sobretudo se ouvido com o volume de som a ultrapassar a modéstia costumeira. Muito swing, nessa faixa. Ou, se preferirem, muito samba-não-samba bom de bola. Seria injusto não mencionar “Inox”, faixa eletrizante (a espaços), em loops que parecem vir de todos os lados, sendo que nem sequer vale a pena tentarmos desviar-nos deles. É ir ao encontro deles, oferecendo o corpo às balas que não ferem nem aleijam, antes pelo contrário. Há por aqui, aliás, muitos caminhos que nos levam ao encontro da paz. Por fim, ainda dizer algo sobre “Ainda Intro”, a faixa mais space-kraut do álbum, que apetece sempre colocar de novo a tocar, assim que chega ao fim.
Uma última menção (teria de ser, uma vez que o trabalho de excelência dos nossos, não nos poderá nunca passar à margem) à fotografia que serve de capa deste 2. Simples, eficaz, certeira, conjugação bonita de forma e cores, apanhadas no click sábio de Francisco Fidalgo, que tanto nos honra ter há muito como compagnon de route desta aventura altamontiana. Por tudo isto, vale mesmo muito a pena ouvir e ver 2, dos Yakuza.