O sétimo álbum de estúdio de Bloc Party é a história de desamor de Kele Okareke, contada em estilo confessional. Mas será que queríamos mesmo saber?
Sempre que sai um novo disco de Bloc Party vou ouvi-lo com uma antecipação adolescente, quase a medo, desejando encontrar aquilo que me fez apaixonar por eles no início da carreira (com Silent Alarm e Weekend in The City) e esperando que, sendo difícil um regresso a esses discos tão marcantes, ao menos estejam ao nível do terceiro álbum da banda, Intimacy (não tão bom mas ainda bastante aceitável).
Anatomy of a Brief Romance trouxe-me alguma expectativa. A produção de Trevor Horn, responsável por discos de Pet Shop Boys ou Grace Jones, aliada ao lado mais eletrónico de Kele podia de facto criar um disco diferente para uma nova fase de Bloc Party: dançável, com guitarras mas também com uma boa batida para dominar as pistas de dança.
Kele assumiu que este era um relato bastante fiel de uma relação de 11 meses que correu mal e que a intenção era fazer um álbum de disco heartbreak, para espantar as dores na pista de dança, como o clássico dance-crying “I Will Survive” de Gloria Gaynor (quem nunca gritou a plenos pulmões “Go on and go, walk out the door” que atire a primeira pedra) ou “Dancing on my own” de Robyn.
Com o produtor escolhido poderia resultar. Chegámos perto em algumas músicas (“Now We Can’t be Friends” tem potencial), mas, no geral, não foi isso que tivemos.
A primeira faixa, “22.01.22” é logo um mau sinal e um alerta para o que aí vem. Depois de canções de separação quase perfeitas, como “Like Eating Glass” ou o lado B “We Were Lovers”, este álbum faz-me sentir quase como se estivesse a ler o diário de um adolescente.
O disco é, de facto, a anatomia de um romance breve. Dissecado em canções, demasiado literal, uma visão muito pessoal da experiência de Kele numa relação que correu mal. É preciso alguma coragem em ser-se tão brutalmente honesto e expor desta forma o desgosto que vivemos. Mas isso não significa que o resultado em qualidade musical seja bom.
Ter o coração partido faz parte de viver. O que vemos nestas canções são uma representação quase cronológica de tudo o que se passou na relação de Kele e não especialmente bem contado. Letras básicas rimando two com you, e day com say, a contar uma história que já vimos (e vivemos) muitas vezes: rapaz conhece paixão no ginásio, há timidez, depois de um ano falam (“22.01.22”), vivem a fase da lua de mel (“Love Bombs”), apaixonam-se (“Lagoon Blue”) as coisas começam a correr mal (“Worst Birthday Ever”, com um título bastante autoexplicativo). Há discussões, há afastamento (“Not your Problem” e “Now we can’t be friends”), a paixão do ginásio continua a ver as stories do Instagram (sim, adivinharam, a canção chama-se “Stories”) e depois acontece, como quase sempre, a superação do fim da relação (“Moving On”) e libertação (“Eulogy”).
A produção de Trevor Horn foi bem escolhida para o estilo um pouco mais eletrónico e dançável de Bloc Party e poderia trazer algum brilho às canções. Esse brilho até existe (experimentem ouvir com uns bons auscultadores), mas fica perdido na banalidade das letras, escondido em riffs previsíveis, com demasiada polidez para aquelas arestas e alguma rudeza a que os primeiros discos de Bloc Party nos habituaram.
Em “Pigwig” temos algumas guitarras rápidas que sempre caracterizaram a banda, continuando ligeiramente o tom em “Lagoon Blue” para logo voltarmos a descer em “Muscleworks”. “Clark Kent” tem quase um Groove de blues que até é interessante, mas não cola bem com a voz tão característica de Kele. E de repente há auto-tune em “Eulogy”, porquê?
Tento mesmo muito gostar dos novos discos, ouvi-los com atenção, escrutinar as letras à procura daqueles twists metafóricos que me fizeram sentir tão vista, como se eles estivessem a falar para mim e sobre mim (“This Modern love” e “Sunday” são duas das canções da banda sonora da minha vida sentimental), e nesta sofreguidão de voltar a sentir o deslumbramento inicial fecho os ouvidos às críticas para decidir por mim.
Acompanhei também a carreira a solo de Kele, desde “Tenderoni”, um delírio eletrónico até ao bastante interessante Leave to Remain, um musical que foi editado em disco e que tem algumas boas canções (“The Proposal” rodou muito por estes lados).
Tentei, por todas as vias possíveis, manter o encantamento. No final, tenho de concordar: já pouco resta daquela banda que marcou definitivamente o indie rock dos 2000, que marcou tantos melómanos, que tão bem retratou a angústia de crescer. Sobra-nos apenas uma ténue lembrança do que foram, a voz sempre diferente de Kele e a sonoridade perfeitamente reconhecível da guitarra de Russel Lissack, único membro da formação inicial que se manteve, depois de um break up feio entre os quatro membros em 2005 – essa sim, era uma história que merecia ser contada em disco.
Não voltei a encontrar nada disso nos discos novos, embora quase me tenham vindo as lágrimas aos olhos de contentamento quando foi editado o disco de lados B, Another Weekend in the City, com canções que ficaram fora dos discos e que são bem melhores do que as que nos são agora apresentadas (vão ouvir “We Were Lovers” e “Vision of Heaven”).
Aqui, resta-nos apenas os desamores de Kele, dolorosos certamente para quem os viveu, perfeitamente esquecíveis para o resto do mundo. Talvez com esta abordagem os Bloc Party encontrem novos públicos, validando a teenage angst que nós tínhamos quando eles surgiram. Ouvindo, em “Eulogy”, Kele cantar “you did the best with what you had” sinto-me, eu própria, a despedir-me deles. Evoluímos em sentidos opostos. Não és tu, sou eu. Desejo-te uma vida feliz.