Artigos

Velvet Underground: Como uma banda de renegados de Nova Iorque se fez maior que a vida

Os Velvet Underground foram uma das bandas mais influentes da história do rock. Podem fazer fact check à vontade disto, que não haverá volta a dar, é confirmado por críticos, músicos, influencers de moda, jogadores de rugby e cabeleireiras. O seu estilo avant-garde, combinação de rock e arte experimental só teve um problema – estar muito à frente do seu tempo.

Formada em Nova Iorque, em 1964, a banda juntou Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Moe Tucker. Inicialmente, ganharam notoriedade pela sua associação com o artista Andy Warhol, que apadrinhou o grupo e os envolveu no projeto Exploding Plastic Inevitable. Foi com ele que lançaram seu primeiro álbum, The Velvet Underground & Nico (1967), que contou com a participação da cantora alemã Nico e foi aclamado por sua crueza e por temas controversos como drogas e sexualidade. É o melhor disco de sempre, com a melhor capa de sempre (desenhada pelo acima mencionado Warhol), e o que mais bandas terá influenciado.

O disco não foi um sucesso comercial imediato, facto que o tempo veio a provar quão desajustados eram da sua geração. A influência do álbum só cresceu ao longo do tempo, sendo hoje visto como uma pedra angular do rock alternativo. O segundo disco da banda, White Light/White Heat (1968), levou o experimentalismo ainda mais longe, com faixas longas e absolutamente caóticas, sendo “Sister Ray”, com os seus 17 minutos, o exemplo mais característico. Este álbum aprofundou a divisão entre os membros da banda, especialmente entre Lou Reed e John Cale, levando a que Cale deixasse os Velvet Underground logo após seu lançamento.

Após a saída de Cale, Reed assumiu um papel ainda mais dominante na banda, resultando em álbuns mais melódicos e acessíveis, como The Velvet Underground (1969),  (onde despontam “What Goes On”, “Beginning to See the Light” e “Pale Blue Eyes”), e Loaded (1970) (“Who Loves the Sun”, “Sweet Jane” e “Rock n’ Roll”). Após o lançamento de Loaded, Reed também deixou o grupo, e a essência dos Velvet Underground desfez-se (apesar de ainda terem lançado um álbum, Squeeze)

A partir daí, Lou Reed e John Cale iniciaram carreiras a solo marcantes. Reed arrancou em 1972, com um álbum homônimo, mas foi o disco Transformer (1972), produzido por David Bowie, que o colocou definitivamente no mapa da música pop com sucessos como “Walk on the Wild Side”, “Perfect Day” ou ainda “Vicious”. Esse álbum fez de Reed uma figura icônica do glam rock e celebrou sua histórica ligação ao underground de Nova Iorque. A sua carreira solo foi caracterizada pela constante experimentação, incluindo trabalhos como Berlin (1973), uma obra conceitual sombria sobre decadência e desespero, e Metal Machine Music (1975), um álbum de feedback e ruído que polarizou a crítica.

Lewis Allan Reed continuou a lançar discos até à sua morte, em 2013, mas sem o impacto que esta fase teve, curiosamente a fase em que esteve sempre perto dos limites humanos, quer no aspecto físico (as drogas tiveram o seu peso), quer no aspecto financeiro (viveu durante vários anos, com um peso abismal de dívidas).

Cale, por sua vez, seguiu um caminho mais experimental. Com formação clássica e um interesse pelo vanguardismo, a sua carreira solo foi caracterizada por álbuns que exploraram gêneros variados, como Paris 1919 (1973), que misturou rock e influências da música clássica. Este álbum é considerado um dos pontos altos de sua carreira solo, com letras sofisticadas e arranjos orquestrais. Cale também se destacou como produtor, trabalhando com bandas emergentes do punk e do rock alternativo, casos de Stooges e Patti Smith.

Nos anos 90, Reed e Cale reuniram-se para o álbum Songs for Drella (1990), um tributo a Andy Warhol após sua morte. O disco serviu para recuperar a ligação entre os dois músicos e ofereceu uma reflexão profunda sobre a vida e a influência de Warhol em suas carreiras. Esta breve colaboração marcou uma reconciliação artística, embora não continuassem a histórica parceria.

Os Velvet Underground, Lou Reed e John Cale estão hoje no Panteão da história da música e serão certamente citados como influência enquanto houver jovens a procurarem guitarras para tocar.

Comments (0)

Comente

Discover more from Altamont

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading