Passaram cinquenta anos para que a noite de ontem pudesse acontecer. Para que pudéssemos viver tudo numa noite.
“não sabia que o tempo tinha uma porta
e nos deixava entrar”
Carla Louro
Por vezes, é difícil exigir ao passado que por lá fique, no seu canto mais ou menos escuro da memória. O melhor (ou o pior, conforme a perspetiva) é quando regressa e brilha, e essa luz ganha dimensões nostálgicas, capazes de derreter a frieza oculta dessa mesma memória, tornando-se nostalgia plena, palpável de tão próxima, de tão presente. Felizmente, existem as palavras para dar conta desse jogo a dois, em que a vida é um tabuleiro prático, desdobrável, abrindo-se quando a urgência é muita, recolhendo-se depois, quando serenamos esse estado de boa aflição, voltando tudo a ficar igual ao que era, estável, os pés de novo assentes no chão. Podem até passar cinquenta anos, que a certeza permanece: “chegar e partir / são só dois lados da mesma viagem”. E nós, de malas feitas de pedaços de imagens, sons, memórias, viajamos e somos, nesses instantes, a nossa própria viagem.
Servem os versos anteriores de “Encontros e Despedidas”, cantados pelo eterno Milton Nascimento, para introduzir o primeiro tema da noite, “Comboio”, com muitas palmas e gritos à mistura. Logo de início, o clássico problema do som do MEO Arena. “Aquela menina casadoira” mal se fazia ouvir cá atrás, na plateia que nos coube em sorte. Mesmo fazendo “calor dentro da gente” pelo apreço por quem estava em palco, a verdade é que faltava qualquer coisa de definido, faltava o detalhe desejado. Mas o concerto seguiu por “armas e tesouros”, por locais “onde as bruxas moram”, por “caravelas” dos anos oitenta, evocando “candeias sem luz” por entre “os braços da nossa cruz” distante e passada.
Depois de uma entrada com canções tão históricas como a própria banda, a também histórica e sempre muito bonita “Esplanada” teve o condão (há coincidências boas) de surgir com um som mais afinado, fazendo-lhe total justiça. Ainda hoje é uma canção portentosa, música e letra. E por falar em hinos de uma geração, “A história que a gente vos quer contar” abriu caminho para uma das canções mais gingonas da banda de Represas e companhia. “A Travessa do Poço dos Negros” continua habitável, transitável e fantástica, exatamente como quando a conhecemos, no disco 84.
O primeiro dos quatro concertos deste episódico regresso destes bons amigos resultou em mãos cheias de temas que muitos conhecem de cor e salteado. Um longo best of desfiado com o claro e hiperbólico sentido de “viver tudo numa noite”. E, de facto, “as memórias são como livros escondidos no pó”, “que queremos viver devagar”. Por elas tudo passou, meninas de sete saias bailaram as danças de outros tempos nas nossas cabeças, convertendo bruxas, porque essas lembranças “fizeram os dias assim”.
É claro que fomos mais altos do que os poetas, e dissemo-lo “cantando a toda a gente” em plena voz.
Houve um momento do concerto em que os Trovante fizeram jus à sua raiz mais popular, cantando temas como “Chão Nosso”, “Procissão de Santa Bebiana” e “Prima da Chula”. Foi, naturalmente, o segmento menos apreciado, pareceu-nos, vá lá saber-se a razão, até que “Saudade” voltou para resgatar palmas e entusiasmos de toda a ordem. Durou pouco, porque a banda despediu-se, adivinhando-se os encores que aconteceram. “Linha das Fronteiras”, “Timor” – num primeiro momento – seguindo-se “Molinera” e “125 Azul”.
Este já extenso rendilhado de memórias, de sons, sentimentos e pedaços de versos deste texto são a prova de que viver tudo numa noite é redutor. Melhor será sempre viver tudo numa vida. A noite de ontem, no entanto, foi longa e curta ao mesmo tempo. Pudéssemos nós sempre viver assim, embalados nos embalos bons que a música nos foi distribuindo pela vida fora, e que os Trovante tentaram encolher para caberem em cerca de duas horas de festa. Foi pouco, foi muito, foi mesmo quase tudo o que queríamos que fosse.
Fotografias de Hugo Amaral




















