Ao fim de quatro anos, os Touché Amoré desenjaularam os demónios que foram acumulando desde o último álbum. A cada berro um despojo da alma, a cada sussurro um prenúncio de um coração a definhar. E “Spiral In A Straight Line” a nossa medicação sem diagnóstico.
É a tristeza iminente dos Touché Amore que toca o cantinho que guardamos no armário. Não queremos o monstrinho cá fora. Que seria de nós se víssemos à solta o extremar da nossa angústia? Talvez isso fosse, afinal, a mais pura forma de expressão? Não resistiria a apoiar essa teoria. Recalcar pode ser o mecanismo natural do corpo humano, mas a purga pode ser a resposta às perguntas que assolam, como reunião sem mediador, o cérebro que tentamos preservar dos males do mundo. Chamem-lhe amor, desgosto ou a puta que pariu. Apesar disso tudo, é possível fazer de um berro a busca louvável pela calma e dissolução dos problemas que sozinhos na cabeça conspurcam a libertação emocional. E eles tocam exactamente nos cordelinhos certos. Mas como desfazer estes nós?
Spiral In A Straight Line diz-nos para cortar, colar a cuspo, deixar ir e voltar a tentar. As cinzas que se lixem, vamos buscar os tijolos, e se for preciso mandamos contra a parede para não os mandarmos à cabeça de alguém. Este soft hardcore emocional parece uma boa forma de canalizar todas as revelias justiceiras que querem ver tudo a arder, só para poder reconstruir. Não ter medo de falar sobre o medo, sobre a fome de sentir, sobre o ter de desistir. E podendo, pegar nisso tudo e fazer um álbum como este. Que faz jus ao legado, com temas capazes de rasgar entranhas, como “Disasters” e “Mezzanine”, doces gritos feitos para embalar toda a tristeza do mundo, como “Force of Habit” e “The Routine”, e grandes hits exactos com os altos e baixos medidos ao mílimetro, como os singles “Nobody’s” e “Hal Hashby”.
Podemos não acabar com todo este sofrimento, mas pelo menos temos quem o varra para cima do tapete para depois a poder queimar. E que bonita é a chama da dor em combustão. Deixa arder.