O sol iluminou a noite do Cais do Sodré, reflectido numa lua cheia e resplandecente. Tal e qual como o concerto dos Too Many Suns; uma noite cheia de hits resplandecentes.
A coisa não podia ter corrido melhor. Com a sala do MusicBox bem composta, e com o aquecimento inicial a cargo dos Sun Waahs, o quarteto lisboeta subiu ao palco para nos presentear com uma dúzia exacta de temas carregados de emoção.
Liderados pela voz e guitarra de Hugo Hugon, a simpática banda, de aparência sincera e atitude genuína, rapidamente conquistou a atenção do público. O alinhamento começou com “Yesterday”, tema que abre também o novíssimo álbum Reverie. E assim começou a visita guiada pelo universo dirty pop lovely rock dos Too Many Suns.
Alguns floreados instrumentais e uma vontade enorme de tocar ao vivo. Logo de seguida “Take Me Home”, o segundo tema do álbum, numa abordagem ligeiramente mais jazzística, a fazer lembrar algumas das influências de Connan Mockasin. É claro que os grandes hits não poderiam ficar de fora. “Quiet”, e sobretudo “Memory Lane”, escaldaram ainda mais o público que por esta altura estava já totalmente imerso na energia empática da banda.
Muito confortáveis na sua performance, e depois de um solo arrebatador em linguagem shoegaze, o quarteto manteve-se por caminhos frenéticos pós-punk lusitanos, sem perder a sua matriz de simplicidade melódica (o que, diga-se de passagem, hoje em dia é quase um achado). Seguiu-se “C’mon”, tema longo de pop introspectiva a fazer lembrar-nos o legado incomensurável da fase Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me dos Cure de Robert Smith. Logo após e sem grandes interrupções para agradecimentos e afinações, “Gold”, um dos singles do novo trabalho, com o seu ritmo quente e uma linha de baixo vigorosa, onde Vasco Rato teve oportunidade de demonstrar que é um executante infalível. Em “Light”, tema do álbum debute “Meaning Of Light”, foi a vez de Hugo e Simão Reis entregarem-se numa contenda musculada de riffs caleidoscópicos. Estava assim desenhado o decorrer da noite. Muito suor, muita emoção, mas sobretudo uma luminosa alegria em palco.
Para fechar a festa, os Too Many Suns escolheram três temas do último disco. Mais um sonante single, com a participação cirúrgica de Surma e a sua voz aveludada, numa toada de brilho pop e invejável percepção cosmopolita. Quase a terminar, o merecido tributo à baixista dos Sonic Youth, Kim Gordon, num tema onde as guitarras transpiraram uma violência quase civilizada, acompanhadas pela excelente performance, como já vem sendo hábito, do baterista co-fundador do projecto João Cardoso.
Chegou, por fim, a hora dos agradecimentos e das despedidas. Ninguém ficou de fora, incluindo o público mais assíduo e as novas aquisições. Mas, felizmente, o devaneio terminou da melhor forma. Sete minutos de “Parallels” à boa maneira do indie rock, com variações rítmicas, solos prolongados e algum psicotropismo artístico característico dos seres bem pensantes. A intensidade foi tal que as extensas pedaleiras de Hugo Hugon não aguentaram a pressão emocional empenhada no desfecho do concerto. Ossos do ofício. Mas como foi dito, e bem, the show must go on. É o que sinceramente esperamos dos Too Many Suns. Muitos mais concertos tão bons como o do MusicBox e mais discos tão certeiros como Reverie.





















