Meat is Murder é um dos discos mais emblemáticos da reinvenção do post-punk britânico dos anos 80, tão relevante que até foi premiado com um pacote de bolachas.
Poucos discos são mais marcantes e simbólicos para uma banda (e, talvez, para uma geração inteira de melómanos) do que Meat is Murder. O segundo disco dos The Smiths, álbum que atingiu o primeiro lugar na tabela britânica e que representa uma nova fase no post-punk dos anos 80, consolidou a banda de Morrissey e Johnny Marr como uma das mais influentes da década, influência essa que dura até hoje.
O disco é icónico ainda antes de o pormos a tocar, com a conhecida capa do soldado no Vietname com Meat is Murder escrito no capacete. É também um clássico desde o primeiro acorde. Impossível não reconhecer de imediato a faixa de abertura: “The Headmasters Ritual”, com o clássico riff do genial e único Johnny Marr.
Também marcou a teenager angst de muitos jovens dos anos 80 e 90. Em 1985, quando o disco saiu, esta que vos escreve tinha dois anos (não façam contas, por favor) e não foi por isso que deixou de ficar profundamente impressionada com a mensagem política, a melancolia e o peso de Meat is Murder.
Não me tornei vegetariana (embora seja uma música que causa desconforto) depois de ouvir “Meat is Murder”, como o baterista Mike Joyce, que após gravarem a faixa, que inclui sons de vacas no matadouro, abdicou da carne. Mas senti-me objetivamente vista na minha melancolia adolescente ao escutar “What she said” e “Heaven Knows I’m miserable Now”, indignei-me com a violência doméstica ao ritmo de “Barbarism Begins at Home”, cantei a plenos pulmões “That Joke isn’t Funny Anymore” e dancei ao ritmo de “Nowhere Fast” (aquela guitarra, aquela sonoridade tão The Smiths, tão boa, tão difícil de replicar, uma maravilha, ainda hoje).
É, talvez, um dos melhores discos da banda, quando também começaram a trabalhar com o produtor John Porter, deixando saudades do tempo em que Morrissey já era um génio musical, mas ainda não se tinha tornado um ser humano execrável, a cancelar concertos porque não conseguiu dormir.
O álbum atingiu sucesso internacional. Morrissey, que tem o único falsete aceitável, conta nas suas memórias que o fundador da editora Rough Trade lhe ofereceu um saco de biscoitos ainda com o preço (2,75 libras) para celebrar o primeiro número um na tabela britânica da editora (e da banda). Se eram vegan ou não, Morrissey não diz, mas desde 1985 que a banda, e também a Rough Trade, percorreram um longo caminho.
Ouvir Meat is Murder 31 anos depois do seu lançamento é confirmar que este é um dos mais emblemáticos trabalhos que saíram do post-punk britânico dos anos 80 e um dos melhores trabalhos dos The Smiths. Inspiração para tantas bandas que vieram depois deles, só podemos agradecer terem-nos deixado, intocado, preservado para a posteridade, este mimo auditivo.