A estreia de The Last Shadow Puppets deu a Alex Turner um espaço para crescer como autor de canções sem estar preso à formação convencional de uma banda rock.
The Age of the Understatement é um dos meus álbuns preferidos de sempre. Pronto, comecemos assim. Cheguei a ele enquanto descobria a discografia dos Arctic Monkeys, claro, e fiquei fascinada com este affair de Alex Turner que, afinal, não fazia só rock, mas também se sabia entregar a canções épicas, orquestrais e cheias de melodia. Impressionaram-me os arranjos de cordas, que agora sei que devemos a Owen Pallett, impressionaram-me as harmonias de Alex Turner com o seu compincha Miles Kane e o aspeto imberbe e arrumadinho de ambos, impressionaram-me as guitarras incansáveis e os refrões num inglês que ainda não percebia totalmente. Tudo isto muito antes de ter prestado a devida atenção a David Bowie ou de ter sequer ouvido falar de Scott Walker. Mesmo agora, que sei que nada foi inventado ali, e quase 20 anos depois da estreia deste supergrupo britânico, não consigo deixar de ter um carinho muito especial por estas canções.
Alex Turner e Miles Kane conheceram-se em 2005 quando a então banda de Kane, The Little Flames, esteve em tour com os Arctic Monkeys. Unidos por referências musicais comuns, foram arranjando novas maneiras de fazerem as suas duas bandas colaborar (Kane tocou guitarra em 505 e os Arctic Monkeys gravaram uma versão de “Put Your Dukes Up, John” dos Little Flames) decidindo a seguir fazer um disco que soasse aos discos dos seus ídolos. O resultado foi The Age of the Understatement, lançado em abril de 2008, com produção a cargo de James Ford e com a participação da London Metropolitan Orchestra.
O disco abre com “The Age of the Understatement” e agarra-nos aos primeiros segundos com uma sequência de cordas desordenadas e angustiantes interrompida por um ritmo galopante em tom de banda sonora de western. Num poema intrincado, Turner e Kane descrevem em uníssono a primeira das várias personagens femininas que habitam este disco, manipuladora e calculista, mas absolutamente irresistível. Encontramos mais mulheres assim em The Age of the Understatement, por exemplo em “Only the Truth” ou “Black Plant”.
Quando não nos falam (só) de mulheres, seja na primeira pessoa ou enquanto narradores que observam cheios de sensibilidade, falam de relações. “Standing Next to Me”, onde está um dos melhores refrões do álbum, fala de um triângulo amoroso, enquanto “Calm Like You” e “Separate and Ever Deadly” falam de separações românticas trágicas. Musicalmente, brilham os arranjos de orquestra, sobretudo as secções de cordas, que conferem a todas as canções um tom sinfónico delicioso. Se canções como “I Don’t Like You Anymore” são rápidas e urgentes, outras são calmas e contemplativas, vejam-se “My Mistakes Were Made for You” ou “The Chamber”.
O álbum termina de forma mais despida com “The Meeting Place” e “The Time Has Come Again” onde as guitarras comandam as melodias e complementam na perfeição os coros que cantam, uma vez mais, sobre desencontros amorosos, com uma enorme sensibilidade e beleza. Em “The Meeting Place” acompanha-os uma trompa que dá à canção um tom sonhador enquanto “The Time Has Come Again” soa ao melhor da banda sonora de Submarine.
Os Last Shadow Puppets deram a Alex Turner um espaço para explorar o seu lado mais melodioso e contador de histórias sem estar preso à formação mais convencional de uma banda rock e será interessante refletir sobre a influência que estas canções acabaram por ter sobre o caminho que a discografia dos Arctic Monkeys tomou. Tenha-se ou não saudades das guitarras rápidas dos discos rock sujos da sua banda principal, é inegável que o espaço que os Last Shadow Puppets lhe deram permitiu que crescesse como autor de canções e nós, sortudos, ficámos com um indispensável disco de estimação.