Há que ouvir este disco. É urgente, muito urgente mesmo, porque os The Burning Hell dizem que não tardará muito, até que chegue o apocalipse. Querem melhor razão do que esta?
Apesar de já andarem pelo mundo dos discos desde 2007, é bem verdade que os The Burning Hell são autênticos desconhecidos neste cantinho chuvoso (outrora mais solarengo) do ocidente Europeu. E, para que o espanto seja maior, a banda já conta com 11 álbuns na sua bagagem discográfica, número que não se pode depreciar, sobretudo por serem bons, muitas vezes muito bons, os seus registos sonoros. É exatamente o caso do mais recente Ghost Palace, acabadinho de sair do forno criativo de Mathias Kom e Ariel Sharratt. A dupla vive, atualmente, na Ilha do Príncipe Eduardo, província canadiana do Golfo de São Lourenço. How exotic, isn’t it? Pois sim. Aliás, tudo neles é moderadamente extravagante e delicioso.
Feitas estas breves notas introdutórias, é importante referir ainda que os The Burning Hell usam e abusam (no melhor dos sentidos) de referências culturais pop nas letras das suas canções. Músicos, filmes, elementos históricos e até mesmo literários em boa e amena convivência e com fundo musical adequado para lhes dar espessura e substância. Um tratado pop terá sempre de manifestar-se assim, com alguma pompa e circunstância. E a cereja no topo desse bolo musical e artístico é, como não poderia deixar de ser, um estilo muito próprio que resulta da fusão das coisas referidas, assim como de tanta outras que, provavelmente, nem nos passam pela cabeça.
Segundo os próprios, Ghost Palace é um álbum pré-apocalíptico. O mundo está por um fio, e há que cantá-lo, antes que acabe, fazendo dele o retrato adequado. Na verdade, não nos preocupámos muito em aferir, sobretudo pelas letras das canções, se é mesmo verdade o que dizem, uma vez que o que mais nos apeteceu foi ouvir com bastante agrado o conjunto dos 11 temas apresentados. E foi mesmo grande, o prazer. O outro, que adivinhamos vir a existir quando olharmos com a devida atenção para as palavras cantadas, virá a seguir, numa muito próxima audição.
O disco vai oscilando entre canções cheias de pica, ritmo e vozes a condizer, e outras onde se compensa um pouco a ausência da referida energia, mais baladeiras, embora nada típicas com o que se presume, quando se fala desse estilo, digamos assim. A voz de Mathias Kom faz lembrar, e muito, a de Stephin Merritt, dos bons e velhos The Magnetic Fields, mas também dos The 6ths, The Gothic Archies e Future Bible Heroes, trio de bandas de quem há muito nada ouvimos, infelizmente. Ghost Palace começa a abrir. É bom o pop-rock enérgico que se ouve em “Celebrities in Cemeteries” e em “My Home Plantet”. Depois, a mais tranquila e excelente “Brazil Nuts and Blue Coracao”, que convida a uma dança marota e apertadinha com o seu preferido par. A inventividade dos The Burning Hell é tão evidente e saborosa, que em todas as canções há sempre algum elemento de surpresa. Um mood, um instrumento, uma qualquer agilidade rítmica inesperada. É mesmo um prazer ouvir Ghost Palace! Há muito que não ouvíamos nada assim, na verdade.
Vamos lá identificar mais algumas das malhas que vos poderão prender a este disco de forma duradoura, isto se o mundo não se extinguir antes, claro está. Até por isso, não há tempo a perder. “Luna FM” é soberba, assim como “Summer Olympics” (ouçam a piscadela de olho à típica guitarra de Mark Knopfler nos primeiros instantes do tema), tão fresca e gingona como poucas. Tudo nela pulula, e nós também. Um primor. “Birds of Australia” é de outro campeonato, mais densa, sombria, de fim de tarde. Balada bonita, sobretudo pelo convívio das vozes de Mathias Kom e Ariel Sharratt. “Ghost Palace”, tema que empresta o seu título ao álbum, também não poderia ser esquecida. Parece feita para ser tocada e cantada à volta de uma fogueira de rua, numa noite estrelada, com marsmallows em espetos de pau à espera de vez.
Enfim, ouça-se os The Burning Hell de coração aberto, e perceberão que um pouco dos anos 80 e 90 está a borbulhar à nossa porta, movendo-se e entrando nela sem qualquer ponta de vergonha, fascinando-nos por conta da inventividade recriada dos imaginários desses tempos. E dancem, amigos. Dancem que o fim dos dias pode chegar a qualquer momento. E antes que nos tornemos fantasmas neste palácio global, vivamos com prazer um dos discos que, por este andar, bem poderá assumir lugar de podium, lá mais para o tempo invernoso da rena Rudolfo e dos presentes natalícios.