A banda de São Paulo traz-nos um disco cheio de belas e imediatas canções indie, com ecos de anos 90 mas cheio de sensibilidade pop e melancolia.
Os Terno Rei nasceram em São Paulo por volta de 2010 e têm feito o seu caminho de afirmação e crescimento ao longo de discos que vão desde o dream-pop ao psicadelismo, tendo quase sempre o indie rock como referência aglutinadora.
Nenhuma Estrela é já o seu quinto trabalho de longa duração, e aqui voltam a dar um salto em frente, sobretudo na procura de um maior foco para o seu som. Aqui há menos espaço para grandes explorações ou exercícios sonhadores, notando-se um maior trabalho sobre o formato canção.
A grande mais-valia deste disco é mesmo essa, canções curtas, concisas e muito viciantes, partindo de uma base indie rock para explorar exercícios pops com variantes de textura e sabor. Um bom exemplo é “Coração Partido”, que usa de forma curiosa e bem conseguida uma canção com sabor a anos 90 mas ajudada por sintetizadores e subtis cordas.
“Casa Vazia” é uma delícia que junta Drums, Ariel Pink e Real Estate num excelente batido pop. “Relógio”, com a participação do histórico Lô Borges, remete-nos para o universo sonoro dos nosso estimados Boogarins. Mas há espaço para a balada emotiva e algo 90’s de “Programação Normal”, o tema mais longo do disco com uns mero quatro minutos. E também para um registo mais synth-pop negra e dançável de “Tempo”, alargando ainda mais o menu de possibilidades do grupo.
No geral, aquilo que se destaca, em termos de sonoridade, é a forma como os Terno Rei pegam em referências e géneros mas fazem um som seu, coeso e identificável. Não é fácil pegar na base de rock alternativo e complementá-la com mestria com elementos mais definidores dos anos 80 (calma, no bom sentido!) como os sintetizadores, sopros ou algum do trabalho do baixo e da guitarra.
As letras não abandonam o território já explorado pela banda, embora se note um maior trabalho nos textos. Agora nos trintas e tais, o grupo continua a dar-nos histórias sobre amores desencontrados, melancolia, inadequação e a procura por superação, algumas das quais autênticas polaroids para adolescentes fora de tempo. É, aliás, uma das marcas dos Terno Rei, esta forma de, cada vez mais, o vocalista Ale Sater expor a sua voz e as suas palavras bem à frente, obrigando-nos a seguir a sua história e os seus lamentos (por exemplo, na melancólica “32”).
Nenhuma Estrela soa, de certa forma, a um disco de despedida de um tempo de juventude e do receio e da angústia do que é finalmente entrar na idade adulta mas sem saber bem como isso se faz ou o que quer dizer. Um olhar para trás para tudo o que se passou é, talvez, a forma natural de não ter de olhar para a incerteza do que vem pela frente.
Os Terno Rei regressam este ano ao Festival Paredes de Coura, depois de uma visita competente em 2023. Oportunidade perfeita para ouvir estas novas canções, de coração exposto em terras minhotas.