Reportagens

Super Bock Em Stock 2021 – Dia 2

O melhor do Super Bock Em Stock 2021 foi revelado no segundo dia do festival! De um dia para o outro, o ambiente mudou e o público português invadiu a Avenida da Liberdade com mais força para assistir a uma grande variedade de concertos, desde Benny Sings a Wet Leg e passando por Ice Age e David & Miguel.

O segundo dia do festival Super Bock Em Stock começou de forma adversa. Ao fim da tarde, as ruas de Lisboa convidaram a chuva a entrar. Num piscar de olhos, a Avenida da Liberdade transformou-se num autêntico quadro impressionista — pintado com gotas de água em queda do céu. As poças que se iam formando nas estradas refletiam a  luz oriunda dos faróis dos automóveis, ao mesmo tempo que as iluminações de Natal, que estão presas às árvores que acompanham o antigo Passeio Público da cidade, reforçavam este ambiente cinematográfico. Este é definitivamente um festival de inverno para o qual os festivaleiros devem ir protegidos, isto é, devidamente agasalhados. Contudo, caso haja falta de roupa quente, há outras formas igualmente eficazes de aquecer o corpo: cantando e dançando.

O lineup do segundo dia do Super Bock Em Stock era bem mais generoso do que o do dia inicial, mesmo depois da organização ter anunciado uma série de alterações de última hora para colmatar a ausência dos Black Country, New Road. O facto do dia dois do festival ter coincidido com um sábado contribuiu de forma clara para a criação de um ambiente mais festivo e animado. As ruas da cidade estavam mais preenchidas, assim como o interior das salas de espetáculo. Ontem, algumas salas registaram até lotações máximas! Foi-nos impossível assistir à atuação dos BISPHØ, no Palácio da Independência, por exemplo.

Antes de termos estado no Palco Super Bock para mexer os pés ao som de Benny Sings, fomos escutar El Salvador e João Sala, no ainda disponível Palácio da Independência. Foi o concerto perfeito para iniciar a noite. As janelas do palacete, que dão para o Rossio, estavam repletas de vestígios de precipitação. Lá fora, o frio. Cá dentro, o calor e um rock «não quero saber», próprio de Salvador Seabra. A boa disposição de Sala, que chega a ser teatral, foi contagiando as pessoas, que receberam de bom grado versões acústicas de temas de El Salvador, Ganso e Zarco; destacaram-se as sonolentas “Só Quero Dormir” e “Deixa-Me Dormir”, que, ironicamente, tiraram o sono aos festivaleiros; “Não Te Aborreças” e “7 Por Sala”. Deste concerto (e dos restantes com a curadoria Cucamonga), retirámos a certeza de que este conjunto de músicos é formado por grandes intérpretes que sabem domar instrumentos como ninguém, assim como criar ligações de proximidade com os fãs que os escutam.

Benny Sings ©Cecile Lopes

Fruto da natureza do festival, o início da prestação de Benny Sings foi… constrangedora. O primeiro tema que o músico holandês trouxe a Portugal deparou-se com um Coliseu às moscas. A plateia estava a caminho; estava, certamente, encurralada noutros concertos realizados em pontos distantes da Avenida. Ainda assim, a sala ficou rapidamente composta e a alegria de Sings invadiu os corpos dançantes de todas as pessoas. Tratou-se do último concerto do tour Music na Europa, e a banda encarregou-se de organizar uma despedida especial, apresentando maioritariamente canções do álbum com o mesmo nome, lançado em 2021. Foi, provavelmente, um dos momentos mais animados do festival. Benny Sings canta tão bem ao vivo como em estúdio e tem ao seu dispor uma banda com atributos inacreditáveis. June Fermie, a backup singer, puxou os holofotes para si em vários momentos do concerto (que vozeirão…), tendo-se mascarado de Mac DeMarco em “Rolled Up”. No trompete, Robbert Scherpenisse ofereceu solos doidos de trompete a uma plateia elétrica. Os temas “Sunny Afternoon”, “Kids” (com muita interação entre Benny Sings e os fãs) e “Music” foram os mais celebrados. No fim do concerto, as pessoas abandonaram o Palco Super Bock com um sorriso na cara — e as mais perspicazes pensaram: um concerto de Steely Dan devia ser assim.

Meia hora foi o tempo necessário para remodelar o Coliseu dos Recreios. A alegria de Benny Sings foi substituída pelos suspiros frios e distantes dos Iceage. Os dinamarqueses trouxeram ao nosso país o novo álbum (Seek Shelter) e foram recebidos por uma plateia que, não surpreendentemente, sabia as letras de cor (ainda bem que não cantam em dinamarquês). Entre os sucessivos sobe e desce’s pela Avenida da Liberdade, fomos ouvindo muitas vozes a murmurar o poema que serve de esqueleto para a primeira canção do álbum: a melódica e emocional “Shelter Song”. Em relação ao concerto, é importante reconhecer que foi um dos mais maduros e profissionais do Super Bock Em Stock 2021. O punk da banda encabeçada por Elias Bender Rønnenfelt está mais musical do que nunca, talvez por estar a recolher influências britpop dos Oasis e dos The Stone Roses. As guitarras e a bateria provocaram uma tempestade perfeita nas faixas “Drink The Rain” e “Dear Saint Cecilia”. O comportamento em palco também deve ser objeto de nota, visto que os músicos não pararam quietos — mas nem isso afetou a qualidade musical do quarteto. Elias esteve imparável e manteve-se impecavelmente bem arranjado durante todo o concerto, como manda a etiqueta do punk-rock.

A variedade musical dos festivais de música é por todos conhecida. No entanto, não deixa de ser «engraçado» passar de um concerto rock entregue por nórdicos pálidos para um concerto de… música popular — melhor: popularucha — portuguesa. Era uma obrigação assistir ao espetáculo de David & Miguel. Quem não esteve no Tivoli, não sabe o que perdeu. Entre as 23h00 e as 00h00, David Bruno e Mike El Nite deram aulas de cultura portuguesa à plateia, e não tiveram problema em abordar temas próprios de bolinha vermelha. A dupla romântica apresentou o álbum Palavras Cruzadas de uma ponta à outra, repetiram um tema para deleite do público (Sóóónia) e ainda recuperaram a faixa “Interveniente Acidental”, retirada de Miramar Confidencial, a magnum opus de David Bruno. É impressionante o modo como as pessoas participam na existência de Palavras Cruzadas. Claro que não deixa de ser um álbum-paródia, no entanto, trata-se de um projeto bem sério que, inclusivamente, faz o que os outros não conseguem: criar uma representação de uma realidade portuguesa reconhecida por todos os habitantes deste país à beira-mar plantado. A verdade pura e dura é que, ao fim do dia, somos todos um bocadinho foleiros. Já nos rimos menos em espetáculos de stand-up comedy naquele palco. Bravo, David & Miguel, Marquito e António Bandeiras, que conseguiram divertir um público de todas as idades como poucos sabem. Resumindo, sábado à noite soube a domingo à tarde. Um país é feito da sua cultura, realmente. 

Fomos a correr para o Capitólio de forma a apanhar a reta final do concerto de Stckman & Kyle Quest, mas o esforço foi inglório. O concerto ainda não tinha terminado, mas era o que parecia, visto que o ambiente da sala estava fraco. A culpa, no entanto, não foi dos músicos que estavam em cima do palco, nem das pessoas espalhadas pelo chão negro do bonito Capitólio, mas sim do sistema de som da sala. Por alguma razão desconhecida, o volume estava baixo, o que foi uma pena. O “Etienne De Crecy português” merecia mais —  e o seu álbum de estreia, stckman, também. Já T-Rex tinha sofrido do mesmo mal. 

Wet Leg ©Cecile Lopes

A dada altura, o escriba desta reportagem verificou as horas no telemóvel e apercebeu-se de que o concerto das Wet Leg já tinha terminado. Algumas lágrimas foram derramadas, mas a vida também é perder. De qualquer das formas, a dupla inglesa deve regressar a Portugal num futuro próximo, porque a qualidade que imprimiram nos singles “Chaise Longue” e “Wet Dream” é merecedora de concertos em toda a parte. E quando elas regressarem, o escriba vai estar na frontrow

Quando regressamos ao Coliseu dos Recreios para o DJ set de Moullinex e Anna Prior, as pernas já acusavam algum cansaço, ainda assim, ainda tinham pilhas — se a música for boa, a energia é infinita. Tratava-se do último concerto do Super Bock Em Stock 2021. O produtor português e a baterista dos Metronomy programaram uma hora e meia de música acelerada, profunda, viciante e festiva. Anna Prior mostrou o seu single iniciático (“Thank You For Nothing”) e Moullinex revisitou os maiores sucessos da carreira.

O segundo dia do Super Bock Em Stock soube, efetivamente, a festival. O primeiro dia tinha sido “fraquinho”, o que não foi propriamente uma surpresa para ninguém. Os nomes de dia 20 de novembro eram, à partida, mais fortes e essa força sentiu-se nos vários palcos que sustentam o conceito do festival. Adicionalmente, o mundo das artes ainda não recuperou do assalto feito pela pandemia e as pessoas parecem estranhar a reconquista da liberdade —  que, verdade seja dita, ainda não está garantida a 100%. O estado pandémico é um bicho de sete cabeças e a sociedade tem-se esforçado para vencer o confronto. Mesmo que o festival tenha apresentado cartazes superiores em edições passadas, o Super Bock Em Stock 2021 foi um sucesso porque permitiu às pessoas viver, de novo, o encanto de um festival e a magia de uma música bem interpretada, bem cantada, bem tocada.

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Fotografia: Cecile Lopes

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Fotografia: Inês Silva

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