Conhecidos pela sua sonoridade experimental, mas com rasgos de batidas reconfortantes e dançáveis, com letras impactantes, os SAULT voltam com um álbum coeso, mais introspectivo e reflectivo, mas também menos fresco e irreverente.
Banda conhecida por criar sons experimentais, os SAULT são formados por Inflo (produtor Dean Josiah Cover), Cleo Sol e Chronixx. Habituaram-nos desde cedo a sons inspirados pelo R’n’B, afrobeat e o chamado retro-moderno psychedelic e a temas relacionados com identidade negra, resistência e a comunidade como chave para mobilização das pessoas (sobretudo nos álbuns Untitled (Black) e Untitled (Rise)). Neste Chapter I há uma evolução para temas mais espirituais.
A sensação que fica ao escutar o álbum é que o lado divino tomou mesmo de assalto a inspiração – os nomes das músicas não nos deixam dúvidas: “God, Protect Me from My Enemies”; “Fulfil Your Spirit”; “Good Things Will Come After the Pressure”; “Create Your Prophecy, Lord Have Mercy”; “Don’t Worry About What You Can’t Control”- mas com isso terá perdido alguma da irreverência e sentido de urgência.
Com letras mais repetitivas (às vezes ad nauseam, como na “Love Does Not Equal Pain”) e melodias menos funky, o álbum torna-se menos interessante. Alguma da frescura que apresentavam quando se lançaram em 2019 com o álbum 5, desaparece neste trabalho mais recente. É natural as bandas, sobretudo as mais “experimentais”, testarem novos sons e ideias, só que neste caso não se sente tanto uma evolução, mas sim uma certa estagnação e indiferença.
Certamente não ajudará que ultimamente os SAULT tenham tido algumas situações desconfortáveis, desde críticas às suas performances ao vivo (“mázinhas”) e o processo instaurado por Little Simz a Inflo (Simz acusa Inflo de não lhe ter devolvido uma quantidade grande de dinheiro emprestado, à data deste texto ainda sem resolução), criam algumas manchas difíceis de ignorar.
Sabemos que isto é uma discussão longa (arte vs. artista), mas, em particular com a questão de Little Simz, torna-se quase impossível não colar as letras às situações relatadas, sobretudo nas músicas “Chapter I”:
“You’re just a loser
And hate that I’m a winner
Can’t get out my way”
ou a de “God, Protect Me from My Enemies”:
“Harder that they come
Strengthens me
God, protect me from my enemies”.
As situações não acontecem num vácuo, pelo que é difícil não associar as letras carregadas de sentimentos de “ser mais forte” e “integridade” e “justiça”, às circunstâncias que envolvem o lançamento deste álbum.
A produção é boa, a voz da Cleo Sol continua bonita e hipnotizante, mas gostávamos que Chapter I arriscasse mais e fosse mais “SAULT”, mais interessante e fresco.
Concordo com a crítica deste álbum. É um bom disco, mas que provavelmente não se destacará em relação a outros dos seus discos. Contudo, referir que, segundo sei, os SAULT apenas tocaram por duas vezes ao vivo, sendo que a primeira teve excelentes reviews. Dizer que as “suas performances ao vivo (“mázinhas”)” com base em dois concertos, acho falacioso.