A segunda parte do extenso itinerário da Tour Emergente arrancou com um concertaço na bela Sala Estúdio Valentim de Barros onde pudemos testemunhar a evolução dos Parque Império e dos Adoro Protocolo, duas das bandas mais promissoras do cenário nacional.
Aqui há pouco mais de meio ano, comecei a reportagem da nossa primeira experiência no Festival Emergente com uma artimanha a que recorro em doses equilibradas (espero eu) para lançar a conversa, evitando outros exercícios metafóricos para onde costumo resvalar com mais frequência. Iniciei então com a definição de “emergir” do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa com a intenção de destacar o forte empurrão que o Emergente tenta dar a bandas e artistas para poderem ser vistos, ouvidos, reconhecidos e vividos pelo público e, já agora, por toda a comunidade musical. Ao reler essa parte do texto, parei na parte do “Verbo Intransitivo” pelo aparente contrassenso que este casal de palavras parece formar quando se juntam.
Descansem, não estão num blog dos “Gramáticos pela Verdade”! Voltei, por isso, ao Priberam que me mandou transitar (pun intended) para o Flip.pt, que por sua vez me fez o favor de relembrar que “Quando as acções significadas pelos verbos não passam a outra pessoa, a outra coisa ou a outro animal, diz-se que esses verbos são intransitivos“. Com a breca! Hoje não me safo mesmo com a analogia gramatical! É que a intenção deste nosso verbo Emergir é precisamente a de transitar, a de passar a outras pessoas (e muitas, de preferência)!
A emergência dos projetos musicais que passaram com distinção pelo palco da Bota no passado mês de dezembro de 2025, tem exigido um trabalho contínuo e esforçado das bandas, da organização do Festival e de um vasto conjunto de parceiros que têm participado na realização das várias etapas da Tour Emergente que entretanto já passou por Penafiel (Ponto C), Coimbra (Blue House / Café Curto / Convento São Francisco) Porto (Maus Hábitos), Évora (Capote Fest / Capote Música) e Portalegre (CAE / Quina das Beatas). Depois do concerto de Lisboa, seguir-se-ão ainda mais sete datas que tomei a liberdade de colar no fim do texto.
No caso da passagem por Lisboa, a Tour implicou ainda que a emergência passasse também por uma nova sala de espetáculos (sim, leram bem … hoje é mesmo dia de perplexidades) no centro de Lisboa. Aberta em 2025, no complexo dos Jardins do Bombarda, a Sala Estúdio Valentim de Barros definiu uma programação (gerida pela Largo Residências) transdisciplinar e muito variada. Esta primeira experiência correu tão bem que fiquei com muita vontade de voltar e explorar também toda a área dos Jardins, particularmente apetitosos em dias de canícula extrema como os que passamos.
Olhos, ouvidos e objetiva apontados para o palco, a noite começou com a atuação dos grandes vencedores da sétima edição do Emergente, os Adoro Protocolo. Não sendo propriamente mais uma perplexidade, o assombro inicial é mesmo testemunhar a evolução brutal do quinteto lisboeta. Se olhar um pouco para trás (maio de 2025, para ser mais exato), é fácil reconhecer a irreverência, a disrupção e a pretensão (pouco ou nada presunçosa) de querer fazer diferente, assim como a singularidade de cada um dos seus membros, mas o colectivo soa e mostra-se muito mais sólido e coeso. O ecletismo sónico da banda ganha imenso com esta evolução, Misturar abordagens tão cheias de carácter como Jazz, Rock, Punk, Noise e alguns pozinhos de No wave pode facilmente resultar em cacofonias sem identidade, mas o quinteto parece já ter percebido como juntar as diferentes camadas de forma equilibrada e dinâmica, mesmo que isso derive num belo urro death metal style. Pessoalmente, prefiro mesmo quando se tornam barulhentos, pesados e abrem o peito e a alma à improvisação! Temos banda, agora venha esse disco!
Os Parque Império conquistaram-me à partida. Logo naquela noite no Bota. Hinos cantados por Chico Apolónio como se não houvesse amanhã (era assim que os críticos musicais dos anos 90 descreviam os vocalistas de Seattle e arredores), com uma malha sónica construída por guitarras filigranadas, teclados pertinentes e uma secção rítmica do outro mundo. O quarteto do Porto acrescenta ainda deliciosos apontamentos através do acordeão e da voz da Joana Mont’Alverne capazes de eriçar os capilares do tipo mais duro que conseguirem imaginar. A banda respondeu à falsa partida causada por um pequeno problema técnico com sentido de humor e terá soterrado o mais do que natural nervosismo que uma situação desta poderia provocar numa entrega total às malhas que compõem o recém lançado EP de estreia Horror Importa-se.
Se me permitem voltar a dar cabo da definição do Flip, a banda vai ganhando transitividade ao longo da sua atuação, contagiando o público com o entusiasmo crescente que vão transpirando em cima do palco à medida que o alinhamento avançam e se ouvem os temas do single Pop-Frustração (2024) e sobretudo do arrebatador “Educação Flop” (igualmente de 2024).
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Próximas paragens da Tour Emergente:
21 de Julho – Coimbra (TBA)
Adoro Protocolo
em parceria com a Blue House
22 de Setembro – Café Concerto do Convento de São Francisco, Coimbra
Beatriz Madruga
em parceria com a Blue House
26 de Setembro – CAAA Guimarães
Parque Império + Adoro Protocolo
17 de Outubro – Auditório CAPAG, em Vila Nova de Santo André
Beatriz Madruga + Parque Império + Adoro Protocolo
21 de Novembro – Texas Bar, Leiria
Parque Império + Adoro Protocolo
27 de Novembro – RUM by Mavy, Braga
Parque Império + Adoro Protocolo
em parceria com a gig.ROCKS
15 de Dezembro – Café Concerto do Convento de São Francisco, Coimbra
LIKA
em parceria com a Blue House
Fotografias por Rui Gato

























