Ah, os New Order e a sua velha desordem, o seu caos controlado de singles fora de álbuns e canções com múltiplas versões, sobre as quais ainda hoje se debate qual é a “definitiva”.
Já aqui confessei o despertar tardio que os New Order tiveram em mim. Mas ainda assim dificilmente acreditaria que estaria, quase 5 anos depois desse momento, a escrever sobre mais um disco da banda. Neste caso uma compilação, uma das mais reconhecidas da história, este Substance. E com o peso acrescido de o Spotify me ter atirado para a cara o facto de “Ceremony” estar no top 5 das minhas músicas mais ouvidas de sempre nessa plataforma.
Mas comecemos a história pelo início. Segundo o baixista Peter Hook, esta compilação nasceu de uma razão bastante inesperada – Tony Wilson, o mítico responsável pela Factory Records, tinha comprado um novo Jaguar equipado com um leitor de CD integrado, e queria ter todos os êxitos dos New Order disponíveis num único CD. Tony Wilson quer, Tony Wilson tem.
Durante os anos 80, os New Order funcionaram essencialmente como uma “banda de singles”, mantendo habitualmente algumas das suas músicas mais inovadoras completamente separadas dos seus álbuns de estúdio (que também foram incríveis). Substance reuniu, pela primeira vez, num álbum duplo, estas grandes misturas de 12 polegadas lançadas em vinil, criando aquilo que pode ser visto como uma espécie de colecção definitiva dos singles da banda. O tracklist mostra uma evolução musical extraordinária – organizada cronologicamente, começa com o pós-punk sombrio e dominado pelas guitarras da acima mencionada “Ceremony”, uma canção nascida ainda das cinzas dos Joy Division, e avança progressivamente para o synth-pop pioneiro e para a música de dança que os caracterizou, com temas como “Temptation”, “Thieves Like Us” e “Blue Monday”, o single de 12 polegadas mais vendido de todos os tempos (e que foi uma das causas da ruína da Factory).
Destaque também para uma das grande canções da banda, “Bizarre Love Triangle”, possivelmente a que foi alvo de um maior número de versões e remisturas. Ora atentem aos números:
- Versão do álbum — 4:21 – A versão original incluída em Brotherhood (1986). É a versão mais directa da canção, produzida pela própria banda.
- Versão de 7″ / Single — cerca de 3:43 – Uma edição mais curta da canção, lançada originalmente em formato 7″. Existem algumas pequenas diferenças entre as edições lançadas em diferentes mercados.
- Shep Pettibone 12″ / Extended Dance Mix — cerca de 6:42 Provavelmente a versão mais famosa, remisturada por Shep Pettibone, versão incluída em Substance e que acabou por se tornar a versão de referência para as pistas de dança.
- “Bizarre Dub Triangle” — cerca de 7:00 A versão dub correspondente ao remix de Pettibone, lançada no lado B do 12″ original.
- Stephen Hague 12″ Remix — cerca de 6:43 Um remix completamente diferente, que acabou por ser lançado na edição especial/Collector’s Edition de Brotherhood.
- 1994 Single Remix — cerca de 3:43/3:46 – O remix associado à reedição norte-americana de 1994 e a The Best of New Order. Foi esta versão que ajudou a canção a entrar finalmente na Billboard Hot 100 norte-americana, chegando ao número 98.
- Armand Van Helden Mix — 8:59 – Um remix bastante mais recente, incluído na compilação The Best & The Rest of New Order, de 2026.
Sete versões portanto de uma só música, algo possivelmente inigualável por qualquer outra.
Mas também se arranjou espaço para uma canção completamente nova: a emblemática “True Faith”, gravada especificamente para o efeito. Acompanhada por um surreal e premiado videoclip, a canção tornou-se um enorme êxito internacional, entrando no Top 40 norte-americano e ajudando a consolidar o lugar dos New Order junto do grande público.
E depois há a capa. Substance seguiu a linha de vanguarda a que os New Order já tinham habituado o seu público. Concebida pelo lendário designer gráfico Peter Saville, utiliza uma tipografia austera e uma abordagem minimalista na capa, criando uma estética enigmática, próxima da de uma galeria de arte contemporânea. Esta linguagem visual reflete a natureza inovadora e vanguardista da música dos New Order e enalteceu uma parte fundamental da identidade da banda.
Sendo um conjunto de singles, não será preciso ouvir este disco “à antiga”, por ordem. Mas que estão aqui reunidas um conjunto de canções que marcam a história da música, isso é indiscutível.