Em 1999, o mundo embalava-se com Play. Duas décadas e meia depois, Moby volta a embalar-nos, agora com um disco de pacífica guerrilha, repleto de boas emboscadas. E é tão bom cairmos nelas…
Moby está de regresso aos discos. Future Quiet é um álbum de guerrilha, combativo, uma suave granada de mão contra os ruídos que nos circundam e cegam, rajada de paz de costas voltadas aos alaridos gritantes de um mundo que berra, grita e alarde a cada instante que passa. Vem, o álbum, trazendo poderosas armas e dispara-as de forma certeira a favor da plenitude harmoniosa da tranquilidade. Cada tema é uma explosão de beleza. E talvez nem todos estejam preparados para tamanha delicadeza, para tanta fragilidade sonora, que exige de nós uma postura radicalmente diferente, uma outra respiração, uma outra forma de ouvir o quase silêncio que promove. Assim fosse o futuro dos tempos, um lugar onde os excessos se curvassem perante os mais íntimos estímulos da vida.
As palavras e expressões bélicas utilizadas no primeiro parágrafo deste texto foram escolhidas com critério e ponderação. Elas servem o contraste que, assim esperamos, possam promover um melhor entendimento de Future Quiet. Há muito que não ouvíamos nada assim, um traço no horizonte pintado em tons de esperança. É tão denso que parece, acreditem, perfeitamente palpável aquilo que ouvimos. Como se a primavera da vida estivesse presente em cada segundo, florindo, em câmara lenta, para espaços e lugares melhores do que quaisquer outros. Por isso, Future Quiet é um disco de guerrilha, como dissemos e sublinhamos de novo, de guerrilha que não fere nem mata, antes capaz de cuidar e fazer sarar o que nos golpeia e destrói. Um escudo protetor como os das personagens dos super-heróis das nossas infâncias, que faziam por nós o que os piores dos homens tentavam sempre contrariar: defendiam-nos, representavam a luta do bem contra o mal. Este vigésimo terceiro disco de estúdio de Moby é a pomba branca que não voa, apenas esvoaça por fora e por dentro de nós, ecoando lugares de prece e comunhão a cada tema.
Longe vão os tempos em que Moby nos fazia dançar. Agora o intuito é outro, muito distante das batidas house semeadas por todo o mundo. O tempo muda e com ele propósitos e intenções também se alteram. Damos imediatamente conta dessa viragem aos primeiros segundos de “When It’s Cold I’d Like To Die”, onde a voz de Jacob Lusk, da banda Gabriels, marca presença e se impõe. O tema, na verdade, é uma revisitação, originalmente presente em Everything Is Wrong, álbum de 1995. Depois, por um tempo que chega aos oitenta e cinco minutos de duração, Future Quiet vai-nos pacificando, mexendo com o coração que pulsa menos, cada vez menos, que se acalma, que se recompõe aos poucos. “Estrella der Mar”, por exemplo, faz milagres, sobretudo quando ouvida em repeat. O instrumental “Mott St 1992” purifica, enquanto “On Air – Quiet Future” eleva alma e corpo. Tudo combina para nos fazer bem, como qualquer bom medicamento urgente e necessário. Basta uma breve dose da voz de serpentwhitfeet para sentirmos o milagre que ela produz. Poderíamos dizer o mesmo de todas as restantes composições do álbum, detalhando-as, mas não o fazemos para que não se alongue o texto em detrimento da descoberta do disco.
Em 1991, o mago David Sylvian, outro camaleão de ritmos, de ruídos e quietudes, deu ao mundo a compilação Approaching Silence. Com ela, aprendemos a amar o que nem todos escutam naquelas três faixas. A referência a esse precioso objeto sonoro não se faz por semelhança implícita com este Future Quiet. Não, o recentíssimo trabalho de Moby é de outro âmbito, tem maior e mais impacto, embora ambos louvem a música e os seus mais íntimos desígnios, aqueles que se enroscam em espirais de sentimentos e manifestações de afeto, como se nos fizessem festas ao corpo e à mente. Isso também acontece na obra de Sylvian, embora neste Future Quiet ganhe contornos de missa, de prece e oração. Como há pouco dizíamos, já não é hora de nos pormos em pé com a música de Moby. Agora é tempo de nos ajoelharmos perante estes prolongados instantes da mais pura formosura e perfeição.