Mitski reafirma‑se como uma das compositoras mais consistentes da música alternativa contemporânea, capaz de transformar minimalismo em tensão dramática. Um disco coeso mas onde faltam canções que se destaquem.
À primeira audição, Nothing’s About to Happen to Me apresenta‑se como mais um capítulo evolutivo no percurso artístico de Mitski, que nos apresenta assim o seu oitavo disco. Ao contrário do que sugere o título, passa-se muito com ela, em pouco mais de 30 minutos e 11 faixas. Mantendo-se fiel ao seu registo, este é um disco onde a tensão vai crescendo e ganhando força, mas sem perder a subtileza e o minimalismo.
O percurso desde Lush, o primeiro disco, evidencia o refinamento da sua linguagem. Se esse disco se apoiava em arranjos de piano mais dramáticos, aqui a grandiosidade surge apenas como uma insinuação, embora a tensão se vá construindo. A herança mais pesada de Bury Me at Makeout Creek persiste em momentos pontuais, como as guitarras saturadas.
Este disco aproxima-se mais ao lado pop sofisticado de Be the Cowboy. Há refrões que parecem encaminhar‑se para a catarse, mas recuam no instante final. Começamos logo com “In a Lake”, que vai aumentando de intensidade conforme a música vai avançando, até quase explodir. A pop de “Where’s My Phone?” também vai beber a este registo, assim como “Rules”.
Há também ecos da eletrónica polida de Laurel Hell, mas enquanto Laurel Hell assumia abertamente a estética synth‑pop, aqui os elementos eletrónicos surgem como textura e não como protagonista. O baixo, tocado em registos graves e prolongados, funciona como âncora emocional, enquanto a bateria privilegia padrões secos e contidos, com uso mínimo de pratos. Sentimos esse sentimento de contenção, que só extravasa na voz, em “That White Cat”, por exemplo.
Nas letras, Mitski mantém a atenção às dinâmicas de poder, identidade e alienação. Em Nothing’s About to Happen to Me domina uma resignação madura. Os versos exploram a expectativa constante de catástrofe, a normalização do medo e a estranha serenidade que pode vir da aceitação do pior.
Já instrumentalmente, o álbum demonstra cuidado pelo detalhe. Guitarras limpas com um toque de coro criam uma aura dream pop sem cair em nostalgia excessiva; pequenos apontamentos de órgão elétrico surgem quase impercetíveis. A produção, os silêncios e cortes bruscos, reforçando o impacto emocional. Cada entrada instrumental parece minuciosamente calculada.
Este é um disco que marca uma evolução e a maturidade da artista. É um trabalho bonito, que precisa de ser ouvido com atenção para captar cada detalhe e subtileza da sua produção cuidadosa. Falta, contudo, uma canção grandiosa que se destaque. É um disco coeso, sem dúvida, e talvez essa forte coesão seja também o seu desafio: encontrar uma faixa que, verdadeiramente, funcione como cartão de visita do disco.