Concerto portentoso de uma banda que vai provando, vezes sem conta, ser um porta-estandarte não só do rock nacional, mas sim de toda a música que se faz em Portugal.
Uma das grandes variáveis que determina a forma de absorção de um concerto é a expectativa que temos para com o mesmo. Muitas vezes compramos bilhete com meses de antecedência, de uma banda que urge ver, e nessas situações tendemos a colocar a fasquia lá para cima, passando para quem nos vai entreter o duro peso de nos arrebatar. Se isso não acontece, podemos culpar n factores externos, mas nunca a nós próprios, deus nos livre de olhar para o espelho.
Outros há em que nada esperamos. Nem compramos bilhete, mesmo apesar de um se calhar até era capaz de ser fixe no fundo da mente, de um amistoso vou comprar para mim, de certeza que não queres. Até que, a escassas horas do evento, cai um irresistível tenho bilhete a mais e te deixas ir. Foi assim que acabei na Casa Capitão, na noite de 28 de Janeiro, sem expectactivas, aberto ao que de lá viesse dos Linda Martini, na quinta vez que os ia ver ao vivo, e com uma certa dose de vergonha de ter dado pouca atenção ao seu mais recente Passa-Montanhas.
A banda encontra-se a fazer uma tour por salas mais pequenas, percorrendo o país de Norte a Sul sob o mote Liga de Clubes, que acontece entre 28 de janeiro e 8 de fevereiro e passa por Lisboa, Leiria, Tavira, São Teotónio, Torres Vedras, Porto, Aveiro, Viseu, Freamunde, e Coimbra, com a produtora Radar dos Sons.
Antes de ontem, o concerto que mais tinha ficado na retina ocorreu em 2017, no Coliseu, num consórcio com Legendary Tigerman. Já os tinha visto em sala grande, em nome próprio, em festivais vários (tanto às 17h, a abrir os hostes, como em horário nobre em Coura 2018) e agora numa sala mais pequena. O público estava agradavelmente diverso, vi gente de todas as idades e feitios a cantarem em uníssono os grandes chavões que os Linda Martini nos deram, e que fazem já parte de uma comunhão cujos crentes praticam com fervor:
“o chão que pisas sou eu”
“parecemos putos, não temos aulas amanhã”
“quero tudo ao mesmo tempo”
“foder é perto de te amar, se eu não ficar perto”
“dá-me a tua melhor faca, para cortarmos isto em dois”
“os ratos vão-nos devorar”
“ninguém é tão feliz, quanto diz”
Possivelmente nem nos melhores sonhos da Cláudia, do Hélio e do André, quando começaram a fazer músicas ainda antes de serem banda (na altura com Pedro Geraldes, entretanto substitúido por Rui Carvalho aka Filho da Mãe), pensavam ter, mais de vinte anos depois, a intensidade com que continuam a habitar o palco. André Henriques partilhou que houve uma música que teve de ir ao youtube ver-se a tocar, para se lembrar como o fazer, na senda de preparação para esta ronda de concertos, que se quis abrangente da carreira da banda. E que se provou ser fórmula certeira.
Se foi das baixas expectativas iniciais, não vos posso garantir. O que posso garantir é que os Linda Martini fazem parte do Panteão da música nacional. Irremediavelmente e inequivocamente e este concerto foi só mais uma prova disso mesmo.
Setlist:
Cronófago
Belarmino vs
Boca de sal
Ratos
Super fixe
E não sobrou ninguém
Dez tostões
Meu Deus
Lição de voo Nº1
Putos bons
Panteão
Corações rápidos
Faz-se de luz
Cem metros sereia
Encore:
Dá-me a tua melhor faca
Fotografias: Rui Gato
























