Naquele que anunciou como sendo o seu último disco, o rapper da Carolina do Norte quase que atinge aquilo a que se propõe.
Não há muitos discos que sejam esperados durante décadas e que atinjam o nível que os fãs esperam deles. Seja o álbum Homegrown de Neil Young ou o SMiLE dos Beach Boys. São alardeados como discos revolucionários, a melhor obra do artista que este escolheu não lançar com medo de que os ouvintes se viciassem neles como n’A Piada Infinita. Até que um lançamento real quebra a fantasia e nos mostra grandes discos, claro, mas que não correspondem às expectativas. The Fall-Off, o sétimo disco de J. Cole, cabe na categoria destes discos em que ganhámos um óptimo disco, mas perdemos a obra-prima.
Jermaine Lamarr Cole, rapper nascido na Alemanha, criado em Fayetteville e o mais “puro” dos três líderes do triunvirato do rap da década de 2010, puxou a cortina sobre este disco pela primeira vez em 2018. Seria o pico da sua carreira, o culminar de uma viagem de décadas e que abriria caminho para uma nova era na sua vida. O que os fãs não esperavam era que demorasse oito anos a chegar e salivavam por cada nova revelação sobre o projecto. E quando chegou o primeiro single começaram as hipérboles: “Vem aí o melhor disco da carreira de Cole”; “Ainda não ouvi e já é o melhor disco da década”; “Vai ser um dos melhores discos de hip hop de sempre”. E a verdade é que o single prometia. “The Fall-Off is Inevitable” vê Cole a cantar a sua vida em sentido contrário, começando pela sua morte, passando pelo nascimento do seu filho, o casamento com a sua mulher, até ao seu nascimento. É um exercício lírico sobre a fragilidade da vida e bem conseguido, sendo nestes jogos que J. Cole sempre foi mais proficiente.
Mas The Fall-Off não mantém a bitola que o single anunciou. O disco duplo está dividido em duas partes conceptuais. A primeira, 29, mostra J. Cole a revisitar o que sentia aos 29 anos, quando era tido como a grande promessa do rap, e a cantar aquilo que acreditava que não podia dizer na altura. O segundo disco, 39, mostra a sua visão da sua cidade Natal e da sua vida e a forma como encara o rap já depois de ser pai, ter vivido tudo o que havia para viver no mundo do hip hop e a pensar no que será o futuro.
Mas qualquer pessoa que conheça o percurso de J. Cole, mesmo que superficialmente como quem escreve estas linhas (e outras mais bem escritas do que estas), não vai encontrar em 29 nada que o rapper não tenha já dito no passado. Mas é também neste primeiro disco que está a colectânea mais forte de canções, como “Two Six”, “Safety”, “Bunce Road Blues”, “Who TF Iz U” ou “Bombs in the Ville/Hit the Gas”.
O segundo disco tem boas canções, como o single de lançamento, a carta de amor à sua mulher “Life Sentence”, “I Love Her Again”, uma resposta à canção “”I Used to Love H.E.R.”, de Common, ou a intro “39”. Mas tem também momentos constrangedores como “What If”, em que Cole imagina Tupac e Biggie a fazerem as pazes antes de morrerem numa guerra de gangues.
Demasiado grande e sem atingir, conceptualmente, a perfeição, The Fall-Off é um grande disco. Mas de grandes discos está o mundo cheio.