Leo Middea transformou o Teatro Tivoli numa sala de estar de canções.
Há concertos que parecem grandes acontecimentos e há outros que se constroem como encontros. O de Leo Middea no Teatro Tivoli BBVA, na noite de 11 de março, pertence claramente à segunda categoria. Mais do que uma apresentação formal de seu novo álbum, Notícias de Puglia, o espetáculo foi um momento de proximidade, quase como se o palco se tivesse transformado numa sala de estar, onde as histórias das canções ganham tempo e espaço para respirar.
Middea entrou em palco com a tranquilidade de quem conhece bem a cidade. E conhece mesmo: Lisboa tem sido uma espécie de casa paralela no percurso do músico brasileiro, e isso sente-se na forma descontraída como se dirige ao público,
entre histórias, piadas e pequenas confissões de estrada. Não há pressa. As canções chegam devagar, como capítulos de um diário musical.
Entre os momentos mais marcantes da noite estiveram várias das novas canções do disco, apresentadas com uma energia diferente da versão de estúdio. Algumas surgem quase em formato confessional, voz e violão, enquanto outras crescem em palco com grooves mais marcados, convidando o público a acompanhar com palmas e refrões cantados em coro. O equilíbrio entre intimidade e celebração tornou-se uma das forças do concerto.
Um dos momentos mais inesperados chegou com a participação de uma escola de samba, que trouxe para o palco um breve, mas contagiante sopro de carnaval. Entre percussões e dança, o ambiente do teatro transformou-se por alguns minutos: o público levantou-se, acompanhou o ritmo e o concerto ganhou um caráter festivo que contrastou com os momentos mais contemplativos da noite. Esse contraste acabou por definir o espetáculo. De um lado, a delicadeza de um compositor que escreve canções quase como cartas pessoais; do outro, a energia coletiva que emerge quando essas mesmas músicas encontram o palco e o público. O resultado foi uma noite que oscilou entre a introspecção e a festa, dois polos que sempre estiveram presentes na tradição da canção brasileira.
Sem recorrer a grandes efeitos ou encenações, o concerto construiu-se sobretudo na relação direta com quem estava na plateia. E talvez seja essa a maior qualidade de Leo Middea enquanto performer: a capacidade de fazer um teatro histórico como o Tivoli parecer, por duas horas, um espaço íntimo onde cada música encontra o seu tempo e o seu lugar.
No final, quando as últimas notas ecoaram pela sala, ficou a sensação de ter assistido a um concerto que foi menos sobre apresentar um disco e mais sobre celebrar uma trajetória. E, nesse percurso, Lisboa continua a surgir como um dos portos mais importantes na viagem musical de Leo Middea.



















