Em 2025, Gisela João mostra-se Inquieta e recupera clássicos que infelizmente estão na ordem do dia pela sua temática, mas que são sempre bons para ouvir e especialmente apetecíveis com estas novas roupas.
Às vezes é preciso lembrar de onde viemos e o que foi preciso lutar para chegar onde estamos. Isto saberá certamente Gisela João, que decidiu compilar composições de Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Niza / José Calvário, Fernando Lopes-Graça e José Mário Branco e com a produção de Luis “Twins” Pereira, que trabalhou com Mountain Valley, Ana Bacalhau, Anjos, Fernando Daniel e esteve envolvido na canção “Ai Coração” da Mimicat. Mas calma seus snobs, não parem de ler já, porque isto soa mesmo muito bem e sabemos que em Portugal é difícil viver da música e há que agarrar as oportunidades e coiso e tal. Aliás, com este trabalho o produtor, em conjunto com a cantora e o guitarrista Carles Rodenas, mostram que entendem as canções e que as sabem vestir novas, etéreas e intemporais e só merecem elogios.
A escolha das canções, quase todas de José Afonso, são extremamente bem produzidas dando o espaço necessário à voz da cantora, num disco que transcende o fado como já tinha acontecido em alguns laivos do anterior AuRora, de 2021, quatro anos antes do lançamento de Inquieta. Algumas são acompanhadas ao piano, como “Com Amor Não Me Engana” ou “E Depois do Adeus”, uma composição de José Calvário e José Niza. Em “Que Força É Essa” temos uma canção implacável em raiva contida, logo seguida de “Os Bravos”, quase em tom confessional com um coro etéreo e longínquo.
“A Morte Saiu À Rua” com baixo, bateria e guitarra lembra algumas coisas de Raul Refree, com a voz de João a dar a necessária gravidade, e “Acordai” de Lopes-Graça ganha uma roupagem cheia de cordas onde a cantora tem a sua voz acompanhada de coro, como na original, mas desta vez numa versão contemporânea que merece ser ouvida em repetição e chega a arrepiar. Como a original.
A “Inquietação” que dá nome ao disco e é um original de José Mário Branco, sai de dentro, com Gisela João a dar tudo num misto de angústia e raiva. É uma gravação em direto que reflete uma série de espetáculos que fez a cantora em 2024, para celebrar os 50 anos do 25 de Abril. Foi aliás este o ponto de partida deste disco, já que, como disse em entrevista, “estes autores podiam ter escrito estas canções hoje”. E que ponto de partida mais rico, para poder pegar nestas canções icónicas e com este nível de qualidade e gosto, poder criar este álbum com poemas e canções necessárias para a nossa identidade, cultura e futuro.