First we’ll take Lumiar, then we’ll take Barreiro. Assim disseram Dedryn, Dígitos, Neck Tatoo Girl, Dudu, Rafa G e Ferox. E assim aconteceu na ADAO.
No passado sábado, a crew do Centro Periférico – D SIDE e amigos, com o seu quartel-general no bairro da Cruz Vermelha, mas trazendo também tropas de outras periferias, seis MCs ao todo, entre nativos e forasteiros já da casa – foi disparar rimas à ADAO (props para a edénica associação, e para o colectivo Sindicato, que urdiu tudo na sombra, e para o uliaruduliarud, o Hendrix dos retroprojectores…).
Começa Rafa G, da zona M de Chelas, dezoito anos bem medidos, puto raçudo, focadíssimo, o primeiro a chegar ao estúdio, o último a sair, qual Ronaldo do rap. Abre com “Eu Sei”, boom bap que sabe o que quer, sem pedir desculpas a ninguém. No final, partilha o palco com Ferox, incrível a cumplicidade, chuta aí a tua rima, que eu chuto a minha, tabelamos de olhos fechados…
E agora o palco pertence a Ferox, que vem de Loures, o caçula da trupe, dezasseis anos, cacete, ninguém diria, parece que cospe rimas há meio século, o diabo do miúdo vai longe…
Neck Tatoo Girl é a senhora que se segue, Padre Cruz in the house, rebentando tudo com “Meus Pais”, ajuste de contas duríssimo, escorrendo pus da alma, e um frio a subir-nos pela espinha. No final, convoca Dígitos e Dedryn para a popalhuda “Tu a Mim”, e há qualquer coisa de fado na sua voz magoada, qualquer coisa que sabe a fel e a destino.
Segue-se Dudu, nascido e criado no Kosovo, dezanove anos, grande pinta, o gajo mais cool do gang, driblando rimas em crioulo e italiano!, uma star antes de o ser, agora é só moldar o barro.
E a bola passa para o veterano Dígitos, da Quinta Grande, D SIDE rules, timbre espesso, dicção exemplar, e uma autoridade na voz que abre montanhas. Dígitos diz “haja som”, e o som ressoa. Dígitos diz “haja classe”, e a classe brota.
Last but not the least, vem Dedryn, nascido na Musgueira, criado na Quinta Grande, fundador da D SIDE, o mais velho da quadrilha, já na barriga da mãe cuspia rimas fodidas contra o líquido amniótico. Agregador desta malta toda, e respeitável pai de família, é um tipo generoso e afável… desde que não lhe façam farinha. As suas novas malhas são rijíssimas, traps fodidos com travo a street, sombrios mas orelhudos, agrestes mas viciantes. Dedryn ciranda, irrequieto e eufórico, movido a shots e a grades de cerveja, salvíficos também os adlibs do Dígitos. E para o filme não acabar em negrume, fecha-se o mambo com o afrogroove de “Objetivo”, descomplicada, descontraída, fresca como um calipo de papaia, peganhenta como um êxito de Verão.
Seis putos do bairro nascidos para falhar, e no inóspito betão a arte floresce…
Foda-se, respect!