Quando a marca de água musical se constrói a partir da diversidade e do multiculturalismo, o resultado é um belo arco-íris sonoro. Atual e de sempre.
Ir direto ao assunto é o melhor, portanto, que fique já escrito o essencial: a música de Expresso Transatlântico faz-nos bem. Faz bem à Democracia, à Cultura, ao Conhecimento, à afirmação da Diversidade, ao reconhecimento de que a mistura de culturas é conquista, aprendizagem, riqueza. Assim se fez e faz Portugal. Assim se fizeram e fazem tantos países do mundo inteiro.
É bem verdade que os tempos até nem estão para isto. Mesmo o mais distraído dos cidadãos já se deve ter apercebido de que a diabolização do outro voltou como se nunca tivesse existido. Como se não houvesse um Caso Dreyfus ou os ditadores dos anos 30 do século passado não tivessem culpado bodes expiatórios como argumento para as horrorosas ações que resultaram em milhões de mortes. É deste modo que o discurso velho se disfarça de novo. E tiranetes enganam a massa mais ou menos ignara.
Agir e criar em sentido contrário ao do zeitgeist acrescenta camadas de interesse ao grupo de Gaspar Varela (guitarra portuguesa), do seu irmão Sebastião (guitarra elétrica) e do baterista Rafael Matos, que recolhe óbvias influências nacionais (Dead Combo à cabeça, claro…), mas também internacionais. Num comunicado sobre o novo trabalho, o trio é bem claro sobre as suas intenções: “É o reflexo de tudo o que estamos a viver enquanto banda e do que fomos observando ao longo do caminho, dos lugares, das pessoas e do tempo.” Ou seja: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” – como na epígrafe do “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago. E ainda: “Além disso, é também um exercício sobre a nossa relação e enquadramento individual dentro de uma sociedade em decadência.” Acrescentamos nós mais palavras da banda, na entrevista que lhes fizemos em 2023.
Depois do EP de estreia em 2022 e do álbum Ressaca Bailada no ano seguinte; depois de concertos em salas esgotadas no país e além-fronteiras, aqui está Trópico Paranóia, com 12 canções que nos fazem sonhar e produção de Paulo Furtado, mais conhecido como Legendary Tigerman. No já mencionado comunicado, sublinha-se que “o Paulo entendeu na perfeição aquilo que queríamos e para onde estávamos a levar este disco. A sua escuta, visão e cumplicidade tiveram um impacto muito forte na forma como as canções cresceram”.
“Flor Trovão” foi um dos singles de antecipação ainda em 2025, mas há muito mais para ouvir e descobrir num álbum em que músicos e instrumentos parecem voar numa imensa cumplicidade criativa, espraiada disco fora: de “Avalanche” a “Canção para a Madrugada”, passando pela música que dá nome ao disco, mas também por “Tigre da Serra”, “Bairro Fantasma”, “Fugi ao Nevoeiro”, “Não Pares Povo”, “Nikita Punk”, “Bruxa do Caramelo”, “Coro dos Mudos” ou “Fim de Festa”.
Em 2023, quando se referiu ao seu Popular Jaguar, Tó Trips falou das “várias geografias” onde ia com a guitarra”, expressão feliz que, também neste caso, é um coro de geografias. A música entendida na sua dimensão mais nobre: um espaço de confraternização, partilha, comunidade e inclusão.
Concertos imperdíveis já estão agendados: a 13 de março, a Casa da Música é o palco escolhido no Porto e, no dia seguinte, o Capitólio acolhe a banda na capital.
É bem provável que Trópico Paranóia venha a ser um dos melhores trabalhos discográficos do ano. A principal razão para isso é que, sendo dos melhores de 2026, tem a carga simbólica do que é intemporal. A música dos Expresso Transatlântico deve ser ouvida sempre e às vezes. Em todos os lugares e apenas naquele que consideramos mais especial. No fundo, porque sim. Porque a sua expressão é a essência de todos nós – humanista.