Esperanza Spalding, um sopro de Milton Nascimento, Jorge Resende e Amália Rodrigues sem “Medo”. Foi tudo belo e caloroso.
Talvez umas três centenas de pessoas, ordeiramente sentadas e batendo palmas nos momentos certos, depois de alguns discretos solos de contrabaixo ou de guitarra portuguesa, por exemplo, preenchiam o cenário do início do quarto dia do Festival Jardins do Marquês, em Oeiras. Tudo isto para ouvir o piano de Júlio Resende e os músicos que o acompanhavam. Chegámos um pouco atrasados (o calor convidava a não saírmos de casa, certo?), mas ainda a tempo de ouvirmos “Fado Blues”, tema inspirado num outro dos Deolinda, “Fado Toninho”. Depois, “Mr. Fado Goes To Africa For The First Time”, com direito a extenso e introdutório solo de bateria, do “grande Alexandre Frazão”, como afirmou Resende. Depois, “Fado Cyborg”, ontem sem os sons dos sintetizadores. Era um prenúncio para o resto da tarde e da noite. Fusão de sons e texturas, de sotaques geográficos que íamos localizando nos recantos mais ou menos salientes das nossas memórias. A excelência imperou, como calcularão. É gente de gabarito, e assim ficámos, deliciados, dispostos a vagar nos sopros da música, nos ventos que ontem, estranhamente, não existiram no recinto. O dueto final com a nossa diva maior Amália Rodrigues foi fabuloso. De resto, era só calor, tranquilidade, e a essência da paz que a música pode oferecer, na sua elegante simpatia.
Breves notas sobre o concerto de Joana Machado. Canta em inglês e as suas composições transportam um claro gosto pelo jazz vocal. Afinada, nem mesmo as poucas pessoas à sua frente (o público presente parece ter preferido ir comer e beber alguma coisa) a fizeram refrear. A situação não era fácil, convenhamos, mas até se ter estatuto, por vezes há que penar. Foi agradecendo as poucas palmas entre canções, desfiando o seu “bom calvário” com simpatia e gentileza. O teclado e a bateria que a acompanhavam iam dando corpo às composições e à voz de Joana. Apesar de já ter uma mão cheia de álbuns, Joana Machado, professora de Jazz e Música Moderna, na Universidade Lusíada de Lisboa, fez o que conseguiu para animar quem a foi ouvir. Nós fomos, e ficámos até ao fim. Com prazer.
Há artistas que interpretam repertórios, e é isso que estamos quase sempre à espera que aconteça; outros há, também, que preferem mergulhar nos seus temas de maneira diferente, buscando antes ampliar as suas paisagens sonoras, transformando-as para além da sua própria existência. O concerto de Esperanza Spalding pertenceu decididamente à segunda espécie. Não foi apenas uma sucessão de composições, mas a abertura de um território onde as leis da gravidade musical deixaram de vigorar e onde o som adquiriu a consistência volátil dos sonhos. Não há paisagens mais bonitas do que essas. Durante todo o concerto, o palco transformou-se numa cartografia imaginária em permanente mutação: rios de harmonias desviavam o seu curso sem aviso, ritmos desdobravam-se como sombras ao entardecer / escurecer, e melodias apareciam no horizonte com a naturalidade de aves migratórias que regressam a uma estação inventada, que as sabe acolher como ninguém.
Esperanza procura a transformação. Cada tema parecia existir apenas naquele instante, recusando a segurança da repetição. A improvisação não surgia como demonstração de virtuosismo, mas como uma forma de pensamento em voz alta, um organismo respiratório que crescia, hesitava, recuava e florescia diante de nós. O contrabaixo, mais do que o seu instrumento, assumia a função de interlocutor invisível. As suas linhas melódicas ora sustentavam o edifício sonoro, ora o desestabilizavam com a delicadeza de quem desloca uma única pedra para alterar o curso inteiro de um pequeno riacho. Se acham que isto é poético, imaginem ouvi-lo.
É curioso que a distinção entre melodia, harmonia e textura (se bem que sejam conceitos tão comunicantes…) dissolvia-se progressivamente, como se cada elemento aceitasse abandonar a sua identidade para participar numa matéria sonora comum. Era precisamente aí que residia a força do concerto: na recusa permanente de qualquer fronteira rígida. Escuta-se em Esperanza Spalding uma linhagem artística construída sobre a curiosidade e sobre uma rara disponibilidade para aprender. E agora, a parte que nos deu mais prazer: é impossível não reconhecer, por entre as dobras da sua linguagem musical, a presença discreta dos ensinamentos que Esperanza recolheu junto de Milton Nascimento. Não através da citação nem da reverência explícita, mas pela assimilação de uma espécie de rara (e por isso quase única) ética criativa. De Milton parece ter aprendido que uma canção pode respirar como um organismo vivo; que o silêncio nunca constitui ausência, mas uma forma subtil de discurso; que a emoção nasce menos do excesso do que da confiança depositada na simplicidade de uma nota sustentada até revelar todas as suas cores. Sobretudo, herdou dele a convicção de que a música não reconhece fronteiras definitivas entre tradição e modernidade, entre composição e improvisação, entre o íntimo e o cósmico. Tal como Milton sempre fez convergir montanhas, cidades, memória e futuro numa mesma paisagem sonora, Esperanza reúne linguagens diversas sem nunca permitir que a fusão se transforme em artifício. Cantou “Outubro” e “Travessia”.
Talvez por isso o concerto tenha produzido uma estranha sensação de irrealidade. Os silêncios possuíam direção; os acordes abriam clareiras onde o tempo deixava de avançar linearmente. Era como assistir ao lento movimento das constelações refletidas na superfície de um lago: nada parecia mover-se e, no entanto, tudo se encontrava em permanente transformação.
No final, quando a última vibração do contrabaixo se extinguiu, permaneceu uma impressão difícil de nomear. Não a satisfação de quem assistiu a um excelente concerto, mas a sensação de ter regressado de um lugar cuja existência dificilmente poderá ser demonstrada. Talvez seja essa a marca dos artistas verdadeiramente singulares: não ampliam apenas as possibilidades da música; ampliam as possibilidades da imaginação. Esperanza Spalding recorda-nos que o jazz continua a ser uma arte do futuro precisamente porque nunca deixa de sonhar. Restava-nos apenas uma vontade: que a noite, que já ia alta, nos permitisse sonhar silenciosamente com ela. Essa era a nossa esperanza…
Fotografias de Valter Dinis










