A estreia de um power trio luso-brasileiro que viaja pelos caminhos do psicadelismo rock.
Comecemos por um pouco de contexto. A primeira vez que nos deparámos com os El Saguaro foi em janeiro deste ano de 2025, aquando da sua participação no Itenerance Fest. A meio do ano estivemos presentes na sua estreia, em nome próprio, no lisboeta Musicbox, que serviu de apresentação do seu EP de estreia.
E agora, quase por coincidência, demos de caras com o trio no evento Fulminante, no BUS – Paragem Cultural, onde o Altamont foi convidado para falar um pouco da sua experiência enquanto meio independente. Conversa puxa conversa, cerveja puxa cerveja, e veio parar-nos às mãos Enthusiecstasy, esse tal primeiro EP, editado pela editora alemã Pink Tank Records.
Da conversa ficámos a saber que este power trio – os brasileiros Lucas Quaglia (guitarra e voz) e André Horta (baixo) e o português João Ferreira (bateria) – andou recentemente em digressão pela Europa central, nomeadamente pela Alemanha e pela Chéquia, antes de regressar à sua base de Lisboa.
O entusiasmo destes rapazes pelo rock é contagioso, e o disco não deixa ficar mal essa primeira impressão, que já nos havia impactado nos espectáculos ao vivo.
Enthusiecstasy é um EP de quatro temas, mas a intensidade e a exploração da viagem engana, fazendo-nos crer que caímos por um buraco mágico cuja duração e impacto são bem mais alargados do que poderíamos esperar.
O arranque dá-se com a fúria propulsora de “Ticket to Fly”, muito hendrixiana logo a abrir, seguindo-se a mais fluida, funky e descontraída “Viaje”, cantada em espanhol e a cheirar ao deserto do Mojave, lembrando aqui e ali os Doors e o seu Robbie Krieger.
“Nazaré” é uma pérola totalmente instrumental, que começa de mansinho e depois arranca tipo comboio de mercadorias, com o baixo e a bateria a fazer uma cama funk e propulsora para a guitarra de Lucas ir ascendendo aos céus (e com um subtil mas maravilhoso teclado a surgir debaixo de tudo). A fechar temos “Slow n´Easy” (de novo a lembrar-nos o lado bluesy dos Doors, curiosamente), que ganha vida quando a banda larga a pauta e se entrega à exploração sónica na segunda metade.
Os já mencionados Hendrix e Doors, os Cream, os Hawkwind ou os Boogarins e tantos outros são alguns dos ingredientes deitados neste caldeirão heavy psych. Que consegue ao mesmo tempo mostrar os territórios de onde vem mas ainda assim tirar partido da liberdade criativa que o psicadelismo permite.
Esta é uma edição extremamente cuidada da Pink Tank, e não apenas pelo som muito bem conseguido. O vinil verde ou alaranjado vem acompanhado das letras e de uma fotografia e conta com a ilustração da portuguesa Viviana Coelho, conhecida por Echo Echo, que dá mais uma vez mostras do seu grande talento nestes territórios mais psicadélicos.
Se apanharem esta malta em palco, não percam. O bilhete vai sempre sair barato para a viagem que proporcionam.