Com o cartaz inteiramente composto por mulheres, foram (sobretudo) canções clássicas escritas por homens que se ouviram no Festival Jardins do Marquês.
O que é que Gisela João e Cat Power têm em comum? Desde a voz icónica até ao estatuto de quase diva da cultura alternativa, em escalas diferentes é certo, não será difícil listar alguns pontos que unam as duas cantautoras. O facto de ambas terem por hábito homenagear os artistas que admiram através de versões das suas de canções também pode valer a pena mencionar. Cat Power reinterpreta canções quase desde o início da sua carreira, tendo inclusivamente lançado dois discos só de covers em 2000 e em 2022, e, mais recentemente, dedicou-se ao exercício de regravar o concerto de Bob Dylan no Royal Albert Hall em 1966, que chegou até nós no volume IV da sua Bootleg Series. Já Gisela João, vindo do Fado, género em que a reinterpretação é o pão nosso de cada dia, também não é estranha ao fenómeno. Com a edição de Inquieta em fevereiro deste ano, um disco que foge ao Fado tradicional e que é composto sobretudo por versões de José Afonso, expandiu o seu domínio desta arte.
Sabendo tudo isto, o que no passado dia 29 de Junho uniu as duas artistas foi terem partilhado o cartaz do segundo dia do festival dos Jardins do Marquês em Oeiras, levando cada uma o seu disco de versões na bagagem. A estas (quase) veteranas juntou-se A Sul, jovem promessa editada pela Cuca Monga, que veio compor o cartaz 100% feminino que iria interpretar sobretudo canções de homens.
Coube a Gisela João o primeiro slot da noite, mesmo à hora do jantar, horário que não lhe fez nenhum favor, antes pelo contrário. Os primeiros “Acordai” da canção original de Fernando Lopes Graça ouviam-se na quinta de recreio do Marquês de Pombal enquanto a maior parte da assistência ali presente se dividia entre filas para comer e filas para aceder às suas respetivas plateias para se sentarem a aproveitar o espetáculo. Apresentando-se com um guitarrista e um teclista também responsável pela secção rítmica eletrónica, Gisela João cantou para quem a quis ouvir o cancioneiro de Zeca Afonso, numa homenagem bonita e bem feita sem nunca deixar de imprimir o seu próprio cunho às canções clássicas. “Que Amor Não Me Engana”, de Zeca, e “Que Força É Essa Amiga”, canção de Sérgio Godinho mas com letra adaptada por Capicua e uma das poucas canções não totalmente feita por homens que se ouviram naquele palco, foram momentos muito bem conseguidos por parte dos músicos que seguiram de forma mais ou menos fiel o alinhamento do disco. Foi pena a tímida resposta da audiência aos pedidos que Gisela João fez para que a acompanhassem num coro. “Canção de Embalar” foi cortada a meio para dar lugar a “Menina Estás à Janela”, de Vitorino, mas nem o refrão orelhudo satisfez por completo a artista que não voltou a tentar pedir que o público cantasse. “Louca” foi o único original que ouvimos naquele concerto que terminou com “Os Vampiros” de Zeca, muito adequado para o horário ingrato. Enquanto o público dos Jardins do Marquês acabava o seu jantar antes do concerto de Cat Power, Gisela João saia de palco enquanto cantava “Eles comem tudo e não deixam nada”.
Num palco mais pequeno do outro lado do recinto começava a apresentação de A Sul. Bem disposta e feliz de estar ali a tocar com Pedro Almeida, o seu percursionista, estivesse quem estivesse a ouvir, A Sul mostrou as canções que compõem a sua (ainda) pequena discografia. Ouvimos “Gin” e a nova “Metáforas”, tudo envolto numa boa onda meio bossa meio indie etéreo, muito simpática e descomplicada. Foi uma boa ginga.
Cat Power entrou em palco com 20 minutos de atraso (mas nós perdoamo-la, já lá iremos), explicando que este concerto seria o último em que cantaria as canções com as quais “Bob Dylan mudou o mundo em 1966”. Passadas as formalidades, foi direta ao assunto que era para isso que ali estávamos todos. Para a primeira metade acústica, Cat Power tinha em palco com ela apenas dois músicos, para tocar guitarra e harmónica, as armas primordiais de Dylan. Sem grandes surpresas (tirando o facto de não ter tocado “Visions of Johanna” e “Desolation Row”, provavelmente devido ao atraso), Cat Power avançou ao longo do alinhamento do concerto/disco, mostrando que ainda tem uma fantástica voz e um timbre tão característico que, mesmo estando os arranjos muito próximos aos de Dylan, as canções não deixam de soar um bocadinho suas. “Mr. Tambourine Man” foi sublime, numa versão estendida, diferente do original, à boa maneira Dylanesca, que soou quente e reconfortante na noite fresca do festival.
A segunda metade elétrica foi anunciada pela capa laminada do livro que Cat Power estava a seguir e que levantou para que o publico visse a palavra “Electric” impressa. Aos músicos já em palco juntaram-se mais guitarras, teclas, baixo e bateria, tudo elétrico claro, todos os instrumentos que fizeram os fãs de música Folk tremer em 1965-66. Nesta segunda parte o alinhamento esperado foi seguido à risca. Em “I Don’t Believe You” o “She” passou a “He” (“He acts like we never have met”) e o “Leopard-Skin Pill-Box Hat” passou a “Endangered Species Cat Hat”. Se no disco de 2023, as versões de Cat Power são talvez até demasiado coladas às versões originais, ao vivo todos estão mais soltos e a artista não tem receio de brincar, de chocar e de tornar o texto mais seu. O próprio Dylan não faria melhor. A “Ballad of a Thin Man” foi possivelmente o ponto alto da performance de Cat Power naquela noite, com uma entrega soberba e com a banda a saber acompanhar o passo. Antes do fim, que todos sabíamos que seria “Like a Rolling Stone”, veio o apelo – “Keep your chin up, you’ve got a lot of work to do” – que é como quem diz – mantenham o queixo erguido que há muito trabalho para fazer – e continuou – contestem o poder, cheguem atrasados e não peçam desculpa (que rainha), “Thank you Bob, I owe you one”.
Foi em tom de festa que o público recebeu as notas icónicas de órgão Hammond que começam “Like a Rolling Stone”. Quebrando um bocadinho a rigidez da plateia sentada, houve quem se levantasse para celebrar com Cat Power e a sua banda o fim desta tour e deste tributo às tais canções que de facto mudaram o mundo. Quer estivessem ali por serem fãs de Cat Power, quer tivessem ido por serem os mais acérrimos Dylan-ófilos, não temos dúvidas de que ninguém foi para casa desiludido. Foi uma estupenda performance da artista americana que personificou muito bem o espírito de Bob Dylan, de quem tanto se tem falado, e ainda bem, em 2025, à boleia do biopic que estreou no fim do ano passado. Com poucos (ou nenhuns originais) mas com fantásticas vozes femininas a fazerem de canções masculinas mais suas, assim foi o segundo dia do Festival Jardins do Marquês.
Fotografias de Armanda Claro gentilmente cedidas pela organização










