O Capote Fest sacode-se com uma celebração recheada de tudo o que nos trouxe numa década de existência. Uma celebração serena e contemplativa sobre o melhor que se faz na indústria do traje alentejano com palestras, conferências e provas diversas de vestuário.
Ok, talvez me tenha enganado no textinho introdutório cujo nome técnico ainda tenho de aprender. Para ser muito honesto, estava indeciso entre fazer referência à indumentária que dá nome ao festival ou a uma convenção imaginária inteiramente dedicada ao escritor Truman Capote. Para variar as coisas, porque não uma convenção dedicada a fãs de Truman Capote vestidos com um capote?
Pode parecer que estou à beira de um colapso mental, mas eu quero chegar a um ponto bem vincado com isto. É que, verdade seja dita, todos estes delírios arranjariam um cantinho qualquer no meio do espírito tão variado, diverso e eclético que o Capote Fest tem para oferecer, ano após ano.
E, no ano em que faz dez anos, a oferta teve, pois claro, uma qualidade e uma variedade invejável.
Para começar, o mesmo se pode dizer do jantar comunitário que foi servido na Sociedade Harmonia Eborense, do qual tive a honra de fazer parte. E, por fazer parte, quero dizer: onde comi e bebi mais do que a minha conta. Comigo, estavam os Les Lads (eles voltarão no final do artigo) e juro que comeram menos do que a conta deles.
Portanto, as coisas equilibram-se.
Mas o Capote Fest não foi o único aniversariante da noite, pois o excelentíssimo radialista Ricardo Mariano, um dos lads dos Les Lads, foi até Évora pronto para não celebrar mais um aniversário. Como somos todos excelentes amigos, contrariámos por completo tal vontade e quando dei por mim estava à procura de velas numa cidade já
deserta para as meter numa sericaia devidamente acondicionada, numa caixinha prateada de take away, enquanto dava fracas indicações às Anarchicks sobre como ir para o sítio dos concertos (não se preocupem, também elas voltarão).
Enquanto isso se desenvolvia, os Pato Bernardo abriam as festividades e depenavam todos os que se metiam à frente com o seu som angular, envolvente, pesado e mascarado. A receita perfeita para afinar tímpanos e calar bicos assim que o último solo metia o ponto final no concerto. Aliás, a prova de que se viu algo memorável está nos elogios entre filtros e lábios ocupados do pessoal fumador, ditos num pátio amplo e bem merecedor do título de ‘MVP da noite’.
Não sei quem estava à minha direita, mas apressei-me para ir ver os Esquerda e, de repente, a paisagem sónica dá uma guinada rumo a rajadas mais breves e intensas que souberam a punk. Repito, não souberam a pouco. Não há aqui engano possível. Souberam mesmo a punk. Não a um nível daquela estética habitual, mas a nível de
atitude. De comunicação que corta tudo o que é desnecessário, incide no osso e ainda
fura mais um bocado. Não só, mas muito graças à voz fenomenal da Carolina Chora.
Pausa para cerveja.
Não, não no Capote. Agora. Durante este texto.
Bem, talvez também no Capote.
A fila para a casa de banho está longa. Talvez porque a bexiga precisa de ser esvaziada ou talvez porque os intestinos de toda a gente implodem com o que as Anarchicks estão a dar em palco. Para os puristas que acompanham a banda desde 2011, reconhecem que a line-up vai-se refrescando de vez em quando. Se for esse o ingrediente para incendiarem palcos assim que os pisam, é um mal necessário. É impossível não mencionar a diversão da banda ao longo do set, desde o completo controlo da Inês Matos na guitarra (uma surpresa só para quem não a conhece) ao Rickenbacker pulsante da sempre carismática Synthetique. Considero-me assim girlschooled.
Nova pausa.
Desta vez, para cantar os anos ao Ricardo Mariano. A sericaia estava incrível. Exceto a parte das mãos ficarem cheias de melaço e a fila para a casa de banho não estar mais aliviada.
Que se lixe, porque agora vêm aí os Thrashwall. Pelo nome, espera-se biqueirada. O thrash, no seu estado mais puro, à boa moda de São Francisco, nunca foi particularmente subtil. E, a esta hora, subtileza é a última coisa que se quer. Sigam os solos, os riffs alucinados, os refrões que ficam no ouvido, a bateria frenética e o salto do vocalista Luís Rodrigues para cima das duas pessoas que o conseguiram apanhar. Estou longe dos meus tempos de metaleiro, mas estes rapazes conseguiram despertar o Paul Baloff adormecido que há em mim.
Para meter SAL na ferida, chegaram os… Ok, já disse o nome. Passamos das entranhas do thrash eborense para uma mistura eclética e muito nacional, repleta de adufes e braguesas. As sementes para a banda formaram-se no final dos Diabo na Cruz e os diabos de uns são os anjos de outros, especialmente para quem levou com o massacre sónico (no melhor sentido da palavra) dos Thrashwall. Estamos, portanto, em território meio inóspito para os cabelos mais longos que fizeram headbang no concerto anterior.
E essa é a verdadeira beleza do Capote.
É um quase um throwback para os anos 70 onde podíamos encontrar um único concerto com o rock sulista dos Black Oak Arkansas a abrir para o metal fabril, mas com muito swing, dos Black Sabbath.
No final de tudo, mas mesmo de tudo, aparecem os Les Lads para dar ali um toque de D e outro de J. E eu, já com demasiada cerveja, lembro-me de lhes tirar umas fotos e de me passar por completo quando eles passaram o melhor tom de guitarra de sempre, cortesia do senhor Ron Asheton, na “I Wanna Be Your Dog” dos The Stooges.
Não consegui acabar o set deles, pedi um Uber e meti-me em casa em dez minutos. Mas durante a viagem toda, pensei que um festival destes não se faz sem sangue, SOIR e lágrimas. Não só de quem organiza, mas de quem vê. Um final muito bonito para eu o estragar ao dizer que, obviamente, não pensei em nada disso durante a viagem. Afinal de contas, sou algum escritor ou quê?
Fotografias de André Cruz, gentilmente cedidas pela organização.
Nota de edição: Apesar do Capote Fest se ter realizado em dois dias, só nos foi possível marcar presença no segundo, dia 9 de Maio, que é o que está reflectido nesta reportagem.


















