A canção escolhida para o dia de hoje pertence ao meu imaginário musical há mais de 30 anos. Sempre tentei perceber, desde o momento em que tomei contacto com ela, o que quereria Gil dizer com aqueles versos tão inusitados, tão cheios de expressões que me eram imprecisas, e que me deixavam totalmente incrédulo e desgostoso por não as conseguir interpretar. Hoje sei que Gilberto Gil quis, ao fazê-la, brincar comigo. O próprio confessou, no seu livro Todas As Letras, que os versos de “Refazenda” nada querem, de facto, dizer. É tudo nonsense, pura brincadeira semântica e fonética. Ainda hoje sei a letra da canção de uma ponta à outra, e fui, ao longo do tempo, elaborando uma preciosa interpretação para o poema cantado pela voz de Gil. Esse sentido interpretativo só eu o sei. Mais ninguém o conhece. Gilberto Gil nem sequer sonha aquilo que o seu poema (me) quer, na verdade, dizer. Não pensem que isso é uma qualquer espécie de vingança pessoal. É apenas uma brincadeira nossa, agora em sentido inverso.
Canção do Dia: Refazenda – Gilberto Gil
