“Ageispolis” desabrocha. Vai procurando a luz do dia, vai soltando as pétalas: tempo de mostra, tempo de ostenção recatada. Solta o carpelo, augúrio e premonição, e por fim exibe-se. Auspiciosa é; a anterior desnuda conformemente discreta passa a mostra destemida, segura, embora se revolva, e embora esconda involuntariamente muito do que é. Há textura, há perspectiva, há substância em cada pétala, e pormenores desses se acentuam, embora desses poucos escapem à obscuridade. A luz do dia é novamente chamada ao acaso, e incide na minúcia. Cada audição é um re-entendimento. Aphex envolve o ouvinte nesta amálgama sensorial que, a preceito da eventualidade paradoxal, desabilita os sentidos. É embriaguez matemática, é um oporto padronizado; é iluminação branda numa rua escura. Luz essa que acompanha o passeio, que ao início o dia apropriou, erro meu foi; é essa auto-imposta, nascendo da própria faixa, e desabrocha tanto quanto “Ageispolis”, tanto quanto a envolvência extática abraça quem ouve, este tão consciente quanto absorto. O ouvinte nesse estado caminha, lânguido e embevecido, alheado e constantemente em reassurance. Aphex, nesta faixa, e na verdade neste álbum, orquestra o path of enlightnment, aflorado e frondoso. Depende de nós em “Ageispolis” a incursão pelo minimalismo electrónico ou pela conspicuidade e densidade dos sintetizadores; caminhamos breves e leves na vicissitude das nossas perspectivas. E qualquer uma é tão legítima quanto a outra, e qualquer outra está tão incompleta e em potencial quanto uma qualquer.
Canção do Dia: Ageispolis – Aphex Twin
Diogo Montenegro
Diogo de nome, Montenegro como apelido, intencionalmente confundido por «pontonegro» ou «montepreto» de forma recorrente, teve como maior arrependimento a sua inscrição no IST em 2013; assim, como recompensa, um miminho egoísta, gesticulou um manguito para o prezado instituto, e como maneira de viver engoliu cursos de revisão literária à boca rota e escreveu críticas e reportagens com maior parcimónia no ano lectivo transacto. É inferível portanto, que se passe a vulgaridade, que é um «ser de muitas contradições»: além do ódio a clichés, candidatou-se neste ano escolar a Artes e Humanidades na FLUL e dá explicações de matemática. (Curioso.) É ainda apologista do acordo ortográfico de 1945. Que o ecletismo não se gaste tão cedo. Nem a boa música.
