Em entrevista ao Altamont, Bruno Pernadas fala-nos sobre unlikely, maybe, disco que revela uma maior aproximação ao jazz, sem abdicar dos arranjos que marcam a sua identidade musical, e abre caminho a uma linguagem que, sem anunciar uma ruptura, já deixa entrever o rumo que o compositor pretende trilhar.
Altamont: De onde é que surgiu este título, quando é que tu sentiste que representava este disco?
Bruno Pernadas: Antes era outro título, o título era A Sound From Beneath The Earth, era algo assim. Mas depois eu comecei a implicar com o título e o unlikely, maybe fazia mais sentido porque como é um disco transitório, é “unlikely” que seja já este o disco que eu quero fazer, ou que eu queria fazer mas, ao mesmo tempo, também já tem algumas ferramentas, já tem algumas dos temas que eu queria abordar harmonicamente. Então, “maybe”. É muito simples a explicação. “unlikely”, porque não vai ser o disco que vai criar uma ruptura, mas “maybe” porque tem um bocadinho, tem algumas músicas que já vão nesse encontro, ao encontro dessa linguagem mais jazzística e mais menos pop.
Então a tua ideia agora é criar mesmo uma ruptura com tudo o que fizeste até agora?
Tudo não, ou seja, porque é, se calhar, tudo o que foi editado. Porque eu já fiz muitas coisas deste género, só que ninguém ouviu. Ou seja, há muito arquivo e há muitas bandas sonoras. Agora editado, sim.
E a capa? A capa, que é uma fotografia tua, não é?
É, aquilo é do meu escritório.
E que eu acho muito engraçado, porque tu passas a ideia de alguém que é bastante organizado, que é bastante perfeccionista, não é? Que não deixa nada ao acaso. E, de repente, tu contrapões com uma capa que espelha completamente o oposto.
Pois, mas eu sou assim, aquilo é o caos organizado. Eu sei onde é que estão as coisas. Estão é assim, espalhadas, mas naquele dia estavam especialmente desarrumadas porque, por exemplo, aquele gira-discos não está em frente ao teclado do computador. Eu é que o tirei para procurar uma coisa e ele ficou lá. O resto é mais ou menos parecido, sim. Mas originalmente a capa também era uma colagem. E a capa atual era a contracapa. A capa era uma foto antiga dos finais de ‘85, ‘90. Duas pessoas a irem ao encontro de uma cabine telefónica pública, da Portugal Telecom. Só que depois, em conversa com a editora, achámos que esta funcionava melhor. E eu também acho que sim. Com o título e com esta questão da ruptura.
Pois, isso já vai um bocadinho no sentido das capas anteriores.
Sim, tinha mais cor. Isto não é muito apelativo. Se passares no telefone, por exemplo, numa app de streaming passa um bocadinho despercebido. Não tem aquelas cores que costuma ter. Mas tem muita informação, muita coisa para descobrir ali.

Quando começas a partir pedra, qual é a primeira camada que vem? E como é que elas depois se adaptam às letras?
A música é a primeira. Às vezes, com letras não definitivas, esboços, ideias de… Muitas letras, tal como as melodias que eu faço, surgem de improvisação. Porque, para mim, é muito mais fácil se eu estiver só a improvisar e a cantar. Como se eu estiver a “rappar”. É muito mais fácil do que estar a pensar em poemas com a caneta, assim com o papel. Tem que ser a agir. Tem que ser, no momento, a concretizar em tempo real. Então surge dessa forma. Tanto a música como a letra. Mas, para mim, a música é mais importante do que as letras.
Então, e pegando um pouco nessa questão do rap… Como é que surgiu esse encontro com a Maya Blandy? E também, esta coisa do rap ser um elemento completamente novo, não é? Como é que surgiu e porquê sentiste a necessidade de introduzir?
Na verdade, não é um elemento novo. Eu tenho muitas músicas de hip-hop gravadas que nunca editei. Até havia uma muito boa, que foi a Mariana Ricardo que deu o nome, que se chama “Só Bambi”, que até era para fazer parte do disco, mas não depois entrou. Mas é uma estreia para quem nunca ouviu essas músicas que eu tenho em casa. No início, comecei por ser eu a cantar. Mas não gostei do resultado. Depois fui dar uma formação na Madeira, na Ponta do Sol – um projecto com alunos de música – e a Maya inscreveu-se. Ela é de Manchester, ou tem o sotaque de Manchester. Ela canta muito bem, nós demos-nos bem, e foi perfeito, porque ela também queria de alguma forma participar. Não é que quisesse participar no disco, mas tinha essa abertura. Gravámos lá no estúdio de manhã e correu tudo bem. Para mim, foi muito bom porque foi muito fresco, porque se fosse a minha voz, ou da Margarida (Campelo), era muito mais próximo. O facto de ser uma pessoa de fora, dá a sensação de que a música não é minha e traz essa frescura que é muito revigorante. E é uma parte da música que realmente tem muito destaque. Comigo a rapar, aquilo estava muito mais bruto, muito mais aquele hip-hop dos anos 90. Ela nunca tinha “rappado” e fez aquilo muito mais suave, mais spoken word.
E é algo que tu vais começar a introduzir mais vezes?
Sim, mas acho que no futuro vai ser assim uma música um bocadinho mais brutinha, mais próximo deste jazz que se chama o jazz espiritual. Que é um termo que tem de se desconstruir e perceber porquê. Porque eu não sou uma pessoa espiritual e religiosa, mas identifico-me com essa música e com o discurso plural que existe nessa música dos anos 60 e 70. E o hip-hop sempre fez parte da minha vida, sempre esteve presente desde criança. Por isso, sim, no futuro podemos ouvir mais coisas deste género.
E em relação à participação da Lívia (Nestrovski)?
Eu sempre quis fazer um samba mais moderno. Nunca tinha feito nenhum. Depois gostei muito do resultado e pensei em incluir a música no álbum. Ainda não tinha certeza se iria funcionar ou não. Mas depois falei com várias cantoras brasileiras, de quem eu gosto muito de vozes e do timbre e ou não estavam interessadas, ou não respondiam. Não foi fácil. Não houve assim ninguém que… nenhuma parecia ter um grande interesse. E já ia desistir, porque em português de Portugal, a voz não ia soar bem. Até que uma amiga minha sugeriu a Lívia. Eu contactei-a e… Uma coisa que foi logo mais simples foi o facto de ela já conhecer a minha música. Já tinha ouvido os meus discos. E demos-nos logo bem. A Lívia, para além de cantar MPB e originais, também é cantora lírica. Óperas e música contemporânea. E quando veio cá a Portugal gravar com a Orquestra, não sei se a de São Carlos ou se a Sinfónica, viemos para este estúdio aqui e gravámos. E foi logo o primeiro take. Gravámos tudo nesse dia.
Estes discos costumam carregar muito a tua identidade… Apesar de tu falares de uma transição, não é? Ainda assim é muito reconhecível esta tua identidade, esta marca Bruno Pernadas. Quando ouvi o disco, senti que era um certo regressar a casa. Há um certo conforto.
É uma linha, não é? Podemos mudar essa linha contemporânea, mas acho que também nunca dá para fugir muito. Não sei, quer dizer… Eu acho que depende um bocadinho daquilo que tu sentires.
É esta ideia das várias linguagens que se cruzam. Há sempre tantas camadas que nós apanhamos quando ouvimos numa primeira vez, depois tentamos descobrir e dissecar em novas escutas e ainda continuamos a encontrar ali pequenos pormenores, não é? Que imagens ou que narrativas é que te habitaram quando tu começaste a trabalhar neste disco?
Imagens, não sei. Mas havia um caminho. Por exemplo, essa música do “Túlipas”. Essa é uma música que tem os acordes um bocadinho… parece aleatório. Não é que seja aleatório porque foram feitos de ouvido, mas não tem grande relação do ponto de vista funcional na harmonia. Não há relação. Em quase todas as outras músicas que eu fiz, há uma relação harmónica. Há um cuidado com a harmonia. Com os voice leadings, em que as notas estão dentro dos acordes a movimentarem-se para cima ou para baixo. Aqui não há. Há a distribuição do voicing na ordem pela qual as notas são tocadas, mas não há isso. É uma abordagem um bocadinho mais moderna. É outro tipo de pensar. É outro tipo de visão e visão do objecto artístico. Ou seja, está menos preso a cânones da academia. Mas foi mais ou menos isso que eu pensei. E depois é estranho, porque eu queria fazer uma coisa que não fiz. O que eu queria ter feito era uma residência com os músicos que participaram. Levar ideias soltas, simples melodias, para estarmos sempre a improvisar e gravar depois no final. Era isso que eu queria ter feito. Não deu. Não por falta de apoio, mas por falta de disponibilidade. Então o que aconteceu foi que eu fui fazendo músicas. E houve umas de que eu gostei tanto, como o “Steady Grace”, que é das minhas preferidas, ou o “Campus on Fire”, que é a mais antiga. E eu queria que essas músicas ficassem no disco. No próximo disco. Não neste disco. Esta ideia de disco mais livre. Mas queria que fizessem parte do disco. E como foi este o disco que eu fiz, acabei por juntar. Se calhar, no futuro, vou conseguir fazer as coisas de outra forma. E aí, não vou usar estas músicas mais próximas da linguagem pop, mas sim outra coisa.
Um projecto como este que tem normalmente uma participação tão grande, com tantos amigos – quanto deste projecto é teu, acima de tudo, mas quanto dele é que também é colaborativo?
Isso é o que eu quero fazer no futuro. Ter assim uma base, uma melodia só, e depois o resto… ou seja, a improvisação neste disco não é assim muita. Quando fiz certas músicas, sabia quem é que as ia tocar. Quando abro a secção para solos, ou para improvisação livre, eu já sei quem é que vai estar a improvisar. Então faço um bocadinho, já a pensar nessa pessoa. Mas daí até ser um discurso muito plural… Não é. É-o no sentido da interpretação. Há muita música que já está escrita. Mas temos os featurings. Por exemplo, a Leonor (Arnaut) tem um solo. A Margarida tem um solo mais rock numa música que se chama “His World”. O José Soares também tem uns três solos, ou dois. Mas a música, no seu geral, foi toda composta por mim. A estrutura estava mais ou menos definida. Não é assim tão livre como isso. Tem zonas sim, mas, no geral, não é. Eu gostava que fosse mais.
Podemos então esperar isso no próximo?
Sim. Eu já faço isso há dois anos, com o José Soares, em duo, às vezes a solo. E é só isso que a gente faz. Agora tenho que tocar o mesmo repertório, que não é bem um repertório. Em trio ou com convidados. Não se combina nada. Estão lá folhas. Pautas, melodias. Várias letras de ensaio que têm melodias. E eu decido, eu ou os colegas, o que é que se faz e o que é que não se faz em tempo real. É isso que eu quero fazer no futuro.

E também dar um bocadinho de espaço para algo que tu não consegues controlar.
Mas eu sempre gostei disso. Por isso é que eu acho que a música de jazz é uma das músicas mais livres nesse sentido, não é? Por exemplo, tenho colegas músicos, também da área de jazz, que tocam muito melhor se não der direções nenhumas, sem sequer saberem qual o tipo de groove ou de ritmo. É só deixá-los tocar. Funciona melhor. Com o trio que eu estou a tocar agora, com o João Souza e o Francisco Nogueira, é assim e funciona bem.
Enriquece, não é?
É óptimo. É óptimo. Até pelo facto de não se falar e não se combinar nada. As pessoas fazem o que querem. Às vezes vai para o mesmo sítio. Às vezes não. Mas é muito interessante.
É um exercício sempre novo, não?
É. Mas eu diferencio a experiência de um concerto. Por exemplo, nesse grupo, no duo ou no trio, eu toco músicas que eu escrevi, mas não para estarem num disco. Escrevi-as para serem tocadas só ao vivo. A experiência tem que ser ao vivo, porque registada não funciona da mesma maneira.
Eu lembro-me da primeira vez que fui ver um concerto teu. Foi em 2014, no Maria Matos. E lembro-me de ter entrado e ter ficado bastante fascinada com tudo aquilo, com a música e as plantas. Era tudo um muito novo. Quando vês aquele disco (How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge) transposto para o palco, com todas as camadas ao vivo, a experiência é completamente diferente e única. Para ti, teres a banda toda contigo é essencial?
É, sim. E prejudiquei a minha carreira por causa disso. Foi uma das piores decisões. Eu sei que, para as pessoas que iam assistir aos concertos, a experiência é memorável sensorialmente e emocionalmente. Mas, na minha carreira, isso só me prejudicou durante os anos todos. Se eu tivesse um grupo pequenino, já teria feito duas tours nos Estados Unidos. Já teria tocado na Europa, nos clubes mais conhecidos. Teria um agente em UK. Teria tocado no Brasil muito antes, no México também. Nada disso aconteceu, porque as pessoas iam ver os vídeos e pensavam “Ah, ok, são muitos. Não vamos…” E não chega as pessoas gostarem. Não chega, porque, com aquele dinheiro, conseguem programar se calhar três grupos.
Tu vês no futuro alguma possibilidade de tu assumires concertos com apenas dois ou três elementos?
Esta música não dá. Lá está. Estes dois anos eu estive a tocar sem discos, porque há programadores e festivais que gostam da minha música e arriscam. Eles não sabem o que é que vão ouvir. Eu andei a tocar com o Zé Soares durante muito tempo. Fiz uma tour a solo na China, depois fui para o Japão onde o Zé se juntou comigo. Mas esta música não dá para tocar dessa forma. Tem que ser mais no estilo daquele trio de que eu estava a falar. Que é mais próximo, muito mais próximo de uma música jazz do que qualquer outra, mas também com elementos mais improv e rock. Mas se já era difícil na altura, agora então é quase impossível. Tu tens de ter um grupo com mais de cinco pessoas.
Passaram-se cinco anos desde o Private Reasons. Quando é que tu sentes que aquele ciclo se fechou? Quando é que tu sentiste que era altura de parar de pensar nesse disco e começar o próximo?
A verdade é quando tive tempo. Porque eu não demoro tanto tempo a fazer os discos, eu sou muito rápido a fazer as coisas. É mais porque vou trabalhando para outras pessoas, para cinema, dança, teatro, televisão, às vezes publicidade também. Quando tenho tantos trabalhos, não posso fazer os meus, porque os outros estão sempre à frente. E quando tenho uma janela temporal, faço os meus.
Vais apresentar o teu novo disco na Culturgest e dia 19 está esgotado.
Está, mas para dia 20 ainda há bilhetes.
E o que é que as pessoas podem esperar?
É mesmo a apresentação do disco. Vamos tocar o disco, e vamos tocar mais três músicas ou quatro músicas de outros álbuns. Essencialmente é uma apresentação do disco, mas vamos experimentar tocar uma música do Worst Summer Ever. Mas ainda não ensaiamos, portanto vamos ver como corre.