Em Neon Summer Skin, Bedouine revisita as feridas e memórias que moldaram a sua vida, convertendo uma vida marcada por deslocamentos, conflitos e nostalgia numa obra comovente e de profunda beleza.
Dizem que as experiências mais difíceis são verdadeiras matéria‑prima para a criação. Azniv Korkejian (aka Bedouine) carrega, com 40 anos – e um ano e pouco mais nova do que esta que vos escreve –, uma colecção de vivências marcantes e demolidoras, das quais estou (ou estamos, certamente) a anos‑luz. A cantautora nascida em Aleppo, na Síria, e de ascendência arménia, cedo se viu confrontada com conflitos, deslocamentos e a separação do seio familiar. Ao mesmo tempo, o que poderia ter sido um reino de caos e desordem serviu‑lhe de alimento para formar uma camada de maturidade e de perspectiva que emerge com a maior delicadeza e beleza nas suas canções.
Neon Summer Skin é o seu quarto álbum e nasce da profunda tristeza e nostalgia provocadas pela sua última visita aos pais, na Arábia Saudita, em 2019, antes de estes se reformarem e se mudarem para a Arménia. O disco começa com a poderosa e belíssima “On My Own”, produzida por Jonathan Rado (dos Foxygen) e com as participações de Brian e Michael D’Addario, dos Lemon Twigs, e introduz‑nos logo no universo tão particular de emoções que envolvem o seu exílio e que moldam o disco.
“Canopies” prende todos os nossos sentidos, quando a intimidade entre Korkejian e a mãe nos abre a porta para partilhar a memória da infância em que foi deixada pela avó de Korkejian num orfanato para crianças do genocídio arménio, para a proteger do seu marido abusivo (“I loved you too much to keep you all to myself / So I committed a crime”). O single foi lançado no Dia da Memória do Genocídio Arménio, com as suas vendas a reverterem para a angariação de fundos destinados a apoiar as pessoas deslocadas do Líbano.“Being part of a diaspora, it’s easy to feel ‘not enough this’ or ‘not enough that’ when it comes to culture or ethnicity. The funny thing is that, ultimately, that is the immigrant experience; not belonging neatly in any one place because, in truth, they belong everywhere”, explica Korkejian a propósito deste lançamento na sua conta de Instagram. Já “Deghma Cheega” recupera a sua identidade arménia para falar de resiliência e da impossibilidade de um verdadeiro regresso a casa.
Ao longo de 11 faixas (que incluem um diálogo com a própria mãe), Bedouine constrói uma viagem pelas experiências passadas, pela herança cultural, pela nostalgia inevitável e por uma clara reflexão sobre esta paisagem dura que marcou a sua vida (fosse de perto ou à distância) e que continua bem presente à sua volta, da qual é impossível esquecer‑se. “So much of the record is about not having the luxury to not consider your own safety”, disse numa entrevista. Essa ideia é bem visível na canção que dá nome ao disco, que parte da memória da própria infância, do verão passado com a sua avó e as suas irmãs (“I was so small / Yet nothing at all / Could alarm me”), e resgata o sentimento de segurança da infância e a esperança de um dia proporcionar esse sentimento à sua própria filha.
Não é difícil compreender como a solidão perfurou e se entranhou em toda a sua história de deslocamento e migração – a própria escolha deste nome artístico em árabe, cuja tradução significa algo como “habitante do deserto”, assim o reflecte –, gerando um contínuo sentimento de não pertença, mas, apesar da carga pesada das suas vivências, a artista continua a ser capaz de nos envolver na pauta folk/soft pop a que nos habituou, permitindo que a esperança revigore. Ouvir este portentoso Neon Summer Skin forjado nas profundezas da uma experiência (uma que, não sendo a minha, é certamente colectiva) marcada pelo movimento constante é fixar a atenção numa realidade que, apesar de distante e pouco familiar, se torna impossível de desver e que nos impele a imaginar futuros mais luminosos.