Uma exortação a dignidades retrospectivas; uma deferência a um autor que não foi esquecido, embora por nunca ter sido lembrado, e uma celebração do virtuoso.
Primeiramente produzido enquanto LP em 1986 — no ponto de ebulição do pós-punk e sua amalgamação com a bubbly quirkyness do synth-pop —, o álbum, se não um sumário bastante da produção tanto prolífica quanto conspícua de Arthur Russell, ao longo do espectro de géneros divergentes, é pelo menos um lembrete imperativo da idiossincrasia das suas produções. Fora isso, qualquer categorização perde relevância. Havendo rigorosa relação entre a arquitectura única da música e a sua experiência enquanto violoncelista, posto o reflexo na tendência para reconfigurar as composições em termos com que a cultura pop ainda não está familiarizada, a música clássica acopla-se à estrutura convencionalizada, e o resultado é o esmorecer da dicotomia vulgar-erudito e subsequentemente a recusa dos rótulos.
Violoncelo e reverberação, e volta e meia o ritmo do pé, sugerindo com pendor militar a ordem dentro da música: estes são-lhe recursos elementares, segundo os quais Russell constrói a atmosfera russelliana, se me falta definição mais apropriada. São esses os vectores que lhe atravessam a carreia, e em exemplo Corn (1983), o seu mais aclamado álbum na crítica, embora pouco aclamado tenha sido comercialmente (uma justificação plausível a poder ser que também pouco tenha sido ouvido). De qualquer maneira, a inclinação de Russell para o experimental e a abstracção, bem como a tendência tanto para a reclusão do ambiente mediático como para um eremitismo inflexível enquanto meio preferido de criação artística, terão sido factores que obstaram não só o reconhecimento do seu trabalho mas também, consequentemente, a desconsideração generalizada da sua lucidez até por parte das instituições de crítica de música.
Independentemente do método, Arthur Russell tem um programa em World of Echo, não menos do que Malevich teve um programa; contudo, como se se lhe infligisse algum meta-dano, o seu próprio método impediu-o de reconhecimentos de que de outro modo poderia ter desfrutado. Julgo que seja altura de se estudar o mérito de Russell; mais do que isso, de que as suas tanto espontâneas quanto calculistas obras-primas — como é o caso de World of Echo — sejam remetidas aos baluartes da cultura pop — ou das outras todas. As recentes (ou tão recentes quanto 2005, devo referir) reedições dos improvisos de Russell intentam já em dificultar qualquer errónea percepção de “um-gajo-estranho-a-vestir-flanela-e-fazer-sons-estranhos-com-violinos-enormes” acerca da seriedade da obra, mas ainda falta compreendê-lo — adornar este homem oblíquo com dignidade retrospectiva. Isto não é cliché folk estabilizado, não é uma atitude classicista de distorção inconsequente. Há propósito; há, por assim dizer, método na loucura.
A Pitchfork nota que World of Echo “sounds like meaningless dreck that barely wakes up to complete a melody or enunciate a single verse of poetry“. Isto é perifrástico daquilo a que Russell exorta que não se faça: rebuscar significado. Seguindo a herança de T. S. Eliot em The Wasteland, por exemplo, World of Echo é um fluxo de consciência permanente que não se desdobra em significado ascético algum, que permite às ocorrências sonoras popular a interpretação do ouvinte. Há eco, há reverberação, há distorção — meios que se instrumentalizam tão-só para agraciar a perícia de Russell enquanto perícia, que redobram a música em entropia tangível. As coisas vão de encontro às coisas; há um sentido de imponderabilidade, há ligações dinâmicas, instáveis entre cada elemento. Este é o captatio benevolentiæ de Russell, na medida em que há subestimação do próprio trabalho. “É um teste, um ensaio, uma brincadeira”, poderia ele ter dito. De qualquer maneira, esta questão reforça a nonchalance do seu esforço.
Contudo, há um propósito, como tenho vindo a advogar: criar a mais vívida realidade rítmica, muito embora seja música sem batida (Audika Records). Ao invés da tendência dos 80s para a hipnose das pistas de dança, Russell tenta emancipar-se da convenção da disco ao destruir as suas próprias fundações (“In outer space you can’t take your drums — you take your mind“, diria ele em 1987). É uma declaração radical, porquanto esta colecção de composições meio rascunhadas, meio improvisadas, extravagantes em personalidade e imediatez, soberbas da ambiência acapella e destruturada, ilude qualquer estrita estrutura de qualquer género que lhe tomasse confronto. A estrutura toma-lhe forma in loco, faz cócegas às melodias — a meio deste desafio formal, especulando, a música tenta escapar-se da música, por assim dizer. Neste récord fragmentário, áspero por demais, a bazófia vai-lhe a ponto quer de pôr a céu aberto a narrativa quer de a encerrar e cobrir, todo o espectro percorrido por acção de um suspiro, um murmúrio, o aclarar de uma garganta. A articulação de cada elemento com cada qual é mediada por cândido virtuosismo, e será esta a propriedade diegética do álbum. De fio a pavio, através de deselegâncias sintetizadas e distorção acídica — perfeitamente enformada a fim de veicular o fluxo intelectual de Russell —, a narrativa parece ganhar força das diversões ao longo do seu curso, às quais Russell enlaça um compromisso de reciprocidade. Aquilo que parece acidente é apropriado enquanto ideia necessária, uma subsequência lógica, o que promove a noção de uma espiral ascendente. Ao caos é conferida ordem em certo grau, ou vice-versa. A cada inflexão e deflexão desenganadas e simultâneas correcções, Russell torna-se a inquieta harmonia, embaraçado ao violoncelo, que se lhe embaraça à voz em relação simbiótica, em fôlegos coreografados de um tempo permanente. Há sempre alguma coisa constantemente a juntar-se a outra coisa, mas também há o sentido de que isto vem ocorrendo por uns tempos.
Não obstante a vividez anormal e tanto a duração quanto a mutabilidade da sua realidade rítmica, ida a mergulhos com reiterações elípticas tanto de cordas açoitadas quanto de cordas ternurentas, bem como de erros cuidadosamente dispostos, Russell está de bem com a tendência de dar fim abrupto a seja qual for a “canção”. Não tenho mencionado canções, posto que creio que este álbum não tirará partido de eventuais compartimentalizações, já que, enquanto esforço da recorrência dos trabalhos clássicos de Russell, tira partido caso se o ouça enquanto um todo. Seguindo o argumento, não é descabido alegar que aquelas quebras inesperadas sejam caprichos de Russell para lhe reiterar o alvo: o fluxo de consciência. As palavras sussurradas, as vozes enigmáticas, as frases parcas em palavras não são suficientes para explicar o automatismo de World of Echo no sentido da volatilidade da expressão; aquelas quebras, cuja presença ao longo do álbum não arreda de se reclamar ao respeito, ao ponto em que se receia que tolha a melodia, tornam-se também um meta-instrumento para reafirmar autoridade sobre o que vai acontecendo. Russell relembra-nos de que é ele quem supervisiona, que todo o álbum está sujeito à combustão espontânea das suas composições — o que é possivelmente erupção daqueloutra “bazófia”. Ainda assim, leva-lhe curto tempo para retomar a “percussão” tribalista, as melodias des-in-uniformes, a exuberância espacial, a congregação sinusoidal desta e daquela ideia. Olhando para o todo, estes momentos de silêncio trabalhado e trabalhoso não passam de recurso de expressão, um meio em que fundamentar o sentido de mutação constante, em vez de se lhe atribuir rótulo tão elementar quanto “quebra inesperada”.
Assim sendo, World of Echo logrou a presença nos baluartes dos álbuns que requerem categoria própria. A fim de relações formais, pela rebelião formal, instigando à linguagem e retórica da qual participamos a sua própria identidade, Russel recusa neste álbum a inflexibilidade da estrutura e rebate-se em permanentes imponderabilidades, ganhando corpo sobre a ténue fronteira entre a criação artística e a ocorrência arbitrária. Não só isso, como também se afirma o cânone da sua própria obra. É a isto que Russell soa: falo não da produção poluída e áspera, mas sim de música consciente dela mesma. O mérito está em celebrar a subversão de maneira tão sensata quanto sensível, simultaneamente confrontando a lucidez da postura criado com a instabilidade da criação.