
Bruno Pernadas assinou o melhor álbum nacional de 2014, para a equipa Altamont. Prepara-se agora para voltar a apresentá-lo em palco. Vai ser no dia 5 de Fevereiro, no Pequeno Auditório do CCB. Tendo em conta que no ano passado, Pernadas deu apenas dois concertos, com este disco, é imperativo ir ao concerto que se avizinha. Sabe-se lá quando volta a acontecer. Como se de um cometa raro se tratasse, não quisemos deixar passar a ocasião sem falar com o compositor, para saber como assistiu ao sucesso de How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge e que planos tem para o futuro.
Altamont: Há cerca de um ano estava a entrevistar-te, sobre o teu disco recém-nascido. Agora estamos aqui a falar sobre esse álbum que foi um sucesso. Estavas à espera desta reacção?
Bruno Pernadas: Não, muito honestamente não estava à espera que houvesse tanta gente a gostar. Houve muita gente a gostar, mas não foi um sucesso do ponto de vista comercial – só fizemos dois concertos e os cds não se venderam todos, mas já sabemos como é que essas coisas funcionam.
Pois, mas quem gostou, gostou muito…
Exactamente, mas gosta muito a ouvir no Youtube [risos].
Sentes que com este disco chegaste a mais gente, que não te conhecia de outros grupos, como Julie and the Carjackers?
Sim, claro, acho que isso acabou por fazer parte do processo. As pessoas ficam curiosas, vão ouvir, depois há pessoas que são mais ligadas à música que vão procurar outros projectos em que aquele intérprete esteja envolvido e uma coisa leva à outra.
E tu, que me pareces um tipo quase tímido, como é que lidas com o furor deste disco – principalmente na crítica, já que crítica e público nem sempre andam ao mesmo passo?
Lido bem. Não é uma coisa que eu….não sei muito bem explicar. Eu fico contente que as pessoas tenham gostado, de uma forma geral. E fico contente que alguns críticos que eu respeito escrevam muito bem sobre o disco. Muito bem, que a crítica seja bem construída, entendes, uma crítica bem fundamentada que faz todo o sentido a nível musical. Só que eu não me sinto diferente do que sentia há um ano. Eu comecei a gravar o disco em 2012 e acabei em 2013 e ele saiu em 2014 e estamos em 2015, a falar de um disco que eu fiz quando tinha 29 anos, ou seja, é antigo. Para mim é, para as pessoas que ouviram não é, porque ouviram pela primeira vez, ali a partir de meio de 2014 foi quando as pessoas começaram a ouvir mais o disco. Mas sim, claro, fico contente que as pessoas gostem do disco, e que crie assim interesse e algum mistério à volta do disco, é interessante esse lado.
E sentes que as pessoas – tanto crítica como público – compreenderam a mensagem que querias passar no disco?
Não, acho que não. Porque eu também não compreendo muito bem, é uma coisa que é um território ambíguo. Mas eu acho que as pessoas tendem a identificar-se com aquilo que para elas é mais próximo emocionalmente, num disco. Há pessoas que ouvem certos songwriters, ouvem as letras e quase que tomam partido dessas letras como se fosse a sua história. Os compositores escrevem as suas histórias a pensar neles próprios, mas depois as pessoas fazem estas construções mentais da letra, é normal isso acontecer, porque as pessoas não só partilham emocionalmente certos aspectos da letra que aquela pessoa escreveu, como se identificam com eles. Por exemplo, a quantidade de gente que se identifica com o Sixto Rodriguez, mas no fundo as letras que ele escreveu são sobre ele e sobre a sua vida em Detroit.
Olhando para a agenda, dia 5 (5ª feira), tocas no CCB. Vais ter em palco muitos dos músicos que estiveram no disco, mas não tantos como estiveram no Teatro Maria Matos?
Sim, são os mesmos que estiveram em Viseu, no festival Jardins Efémeros, que foi o nosso segundo concerto no Verão de 2014. Vão ser basicamente os mesmos músicos, um ensemble com 9 pessoas. No Maria Matos eram 11 pessoas, mas acho que com 9 a música soa muito bem.
E o aspecto cénico do palco? No Maria Matos estava muito exótico, desta vez também vai ser?
Infelizmente, para este concerto no CCB não conseguimos reunir tantas condições a nível de apoios e parcerias para conseguir montar o cenário que queríamos que acontecesse. Porque todas as ideias que surgiram em debate – sobre qual seria o cenário, porque não queríamos repetir o cenário do Teatro Maria Matos – envolviam muitos custos aos quais não tínhamos acesso de fundos e não conseguíamos pôr aquelas ideias em prática. De qualquer forma conseguimos uma coisa mais singela, mas que ao mesmo tempo vai jogar com alguma ligação…mais dentro do universo do Espaço que a música tem. Vai mais por aí do que para o lado exótico da música, como o cenário do Maria Matos, repleto de plantas. Este vai mais para o lado espacial.
Preocupas-te em não repetir? Não só a música mas também o cenário?
Sim, acho que é interessante. Eu também não pactuo com aqueles grupos que enchem o palco de tralha ou aqueles cenários megalómanos, em que o desenho de luz está sempre a mudar. Não gosto desse tipo de abordagem, mas acho que é importante a luz estar boa e haver uma espécie de dramaturgia cénica, digamos.
E também vais mudar as músicas, com novos arranjos. Que tipo de novidades vais apresentar?
Vai ser próximo do que fizémos em Viseu, que foi mexer um bocado na estrutura dos solos, na sua duração. E por exemplo, no concerto do Maria Matos havia uma música em que eu tinha um solo de vibrafone, eu agora já não faço esse solo, é um dos músicos da secção de sopros que o faz. Pronto, é a nível de solos, a nível de dinâmica, a nível de alguns sons que mudam, outros efeitos que eu uso, não são arranjos de «naipe», são mais arranjos de produção.
Já vais tocar música nova?
Vamos tocar dois temas novos. Um dos temas esteve para fazer parte do disco, era para ser o 10º tema do disco, só que eu no final do processo tirei-o porque não encaixava com os outros temas de uma forma geral. O outro tema que vamos tocar é um que originalmente foi escrito para uma orquestra de sopros e de cordas, só que eu quis apresentar este tema agora e fiz uma redução para este ensemble.
Pensava que estes inéditos tivessem sido já compostos com o foco num novo disco. Tencionas prosseguir a carreira em nome próprio?
Ah sim, sem dúvida. Só que estes temas não foram parte desse próximo disco que eu farei. Possivelmente vão fazer parte do terceiro disco, em nome próprio. Mas o segundo disco vai ser muito diferente deste.
E já pensas nesse segundo disco?
Sim, metade já está feita. Já estava feito quando eu editei o How Can We Be Joyful… na verdade. Porque, lá está, o processo do How Can We Be Joyful… começou há tanto tempo, e a meio de 2013 o disco já estava praticamente feito, quando ele saiu em 2014, para mim era uma coisa já… já estava terminado há muito tempo na minha vida e então eu fui fazendo outras coisas. E essas ideias musicais que eu fui construindo são muito diferentes de How Can We Be Joyful… muito diferentes mesmo. E então o próximo disco, eu acho que vão ser poucas as pessoas que gostaram do primeiro que vão gostar do segundo. Acho que não vão gostar muito e tenho a certeza que não vai passar em nenhuma rádio.
Vais por direcções mais obscuras?
É mais intrumental, mais acústico, é Outonal, não tem característica nenhuma da música pop, a nível melódico não há pop ali. Não tem electrónica, é uma coisa que vai envolver mais instrumentos acústicos, de sopro, cordas, e vai ser uma música mais próxima da improvisação e do jazz, e um bocado da música de câmara, pronto, não vai ter nenhuma característica pop. E eu acho que isso vai fazer com que algumas pessoas que gostaram do How Can We Be Joyful… fiquem «desiludidas», porque se calhar estavam à espera de uma linha condutora naquele sentido, e isso não vai acontecer.
Já tens prazos para lançar este novo álbum?
Sim, estou a pensar gravar em Maio/Junho ou então depois da rentrée.