
Há 10 anos, os Buraka Som Sistema apareceram com estrondo e começaram a derrubar barreiras, nas mentes e ouvidos do público ocidental, tornando-o menos receoso de escutar coisas que vinham de outras latitudes. Percorrido esse caminho, estamos hoje mais receptivos a bandas como os Batuk. Sediados em Joanesburgo, eles são a mais recente e bem sucedida exportação da África do Sul. Dois produtores de renome – Aero Manyelo e Spoek Mathambo – juntaram-se a Manteiga, nome de palco da moçambicana Carla Fonseca, e recriaram a música e ritmos tradicionais de África, numa fusão espantosa com o house cosmopolita. Acabam de lançar o álbum de estreia, Música da Terra, e são convidados dos Buraka no Globaile, evento que encerra no dia 1 de Julho as Festas de Lisboa e que marca também o fim dos Buraka Som Sistema (enquanto banda, vão continuar, como entidade de promoção cultural). O concerto dos Batuk é na sexta-feira às 18h e não vamos querer faltar.
Altamont: Contem me a história de Batuk, como se juntaram e formaram a banda?
Manteiga: Todos temos diferentes perspectivas. A minha é que eu sou amiga do Spoek há muitos anos e ele e o Aero começaram a trabalhar juntos há uns anos e o Spoek pensou que seria boa ideia levar-me ao estúdio, em Fevereiro passado, e fomos tocando, eu levei algumas coisas que escrevi, eles produziam música e depois escrevemos juntos e fizemos a nossa música.
E como foi a divisão de tarefas, quem faz o quê? A música é toda feita em computador ou há instrumentos?
Aero: Não é só no computador, também estivemos em Moçambique, tocámos com um grupo chamado Group Zore, focado na música tradicional, não estamos interessados apenas em coisas digitais e electrónicas, também temos instrumentos acústicos e elementos que pomos na nossa música.
E o nome da banda, vem de batuque, em português, ou tem outro significado?
Spoek: Sim, vem daí. Somos nós a trabalhar com ritmos e formas diferentes, mas em certas zonas de África, Batuk também é uma religião, e isto pode ser interpretado de várias maneiras. Mas foi um ponto inicial para a banda, juntar diferentes países e línguas, com sensibilidades diferentes. A África do Sul é muito anglofónica, e esse é um mundo, mas estamos interessados em explorar outros mundos, que existem dentro de outros países. E ao princípio foi interessante, [o nome] é uma palavra portuguesa, mas através da diáspora portuguesa é interpretado de várias maneiras diferentes.
Apesar de o nome da banda remeter para o ritmo, a vossa música também é muito forte em melodias. Essa é uma preocupação vossa?
Aero: Eu gosto muito de melodias, muito do meu material a solo, há poucas canções que não são focadas na melodia. Batuk é um projecto em que há uma vocalista e temos de encontrar uma melodia que encaixe bem.
Manteiga: O tipo de música que cada um de nós ouve, fora do house, seja que género for – jazz, blues, rock’n’roll – são todos muito fortes nisso e nós adoramos melodias e tentamos trazer isso para a nossa música.
Aero: E é mais fácil identificar uma canção ou cantá-la a outra pessoa através da melodia, não pela batida.
E o título do disco, Música da Terra. Refere-se a terra, solo, ou Terra, planeta?
Manteiga: Estamos a falar de chão, todos os tipos de solo, de terra, de todo o mundo. Música do mundo.
Spoek: Quisemos que fosse música das pessoas, músicas da Terra, nós a percorrer vários lugares a colaborar com pessoas de lá, não apenas música para os tops.
E esta música da terra, cantada em várias línguas, também tem muita Africanidade, quase como uma ponte que unifica diversos países?
Aero: Não apenas de África, do mundo inteiro. Nós queremos tocar todas as partes do mundo, do Universo, Plutão talvez, hahahah.
Spoek: Mas isso da língua, é interessante. Em Portugal a língua é português, para nós na África do Sul – se bem que há uma língua europeia – há outras 10 ou 20 línguas, e as nossas canções funcionam assim, várias línguas dentro de uma canção, nunca há uma canção cantada num só idioma. É uma concertação de esforços, que reflecte de onde vimos. Em minha casa, com a minha família, falamos 4 línguas, dentro da mesma frase!
Neste disco, têm colaborações com artistas de Moçambique, Uganda, Senegal, Congo, Sudão. Foi fácil trazer essa gente para a vossa música, directamente ligada ao house?
Aero: Foi muito fácil. Trazemos uma pessoa ao estúdio, tocamos umas coisas e acabamos por nos entender, mesmo com pessoas que vêm de contextos diferentes.
Manteiga: Numa das nossas canções, “Canta Minha Terra”, tivemos a honra de trabalhar com Annet Nandujja, do Uganda, uma artista prolifera, com 70 anos, muito famosa, que canta música tradicional, uma música incrível mas que é completamente diferente da nossa. Fomos para o estúdio, tocámos uma coisa para ela e era muito diferente do que ela faz habitualmente, depois despimos a música, tirámos vários elementos, e aí ela foi acrescentando as suas melodias e quando misturámos tudo, ela ficou espantada, e nós ainda mais!
Sobre o que falam as vossas canções? Há partes que percebo, que têm imensa sensualidade, mas há letras noutras línguas que não entendo. Do que falam?
Manteiga: As músicas variam, vão do sexo ao amor, guerra, canções de protesto contra a guerra, assédio sexual.
Spoek: Há também contar histórias, o “Daniel” é sobre um marido ou um filho que parte e nunca mais volta, e toda a gente diz “a tua mãe está à tua procura, a tua mulher está à tua procura”, é sobre um homem desaparecido e é tocante.
Manteiga: “Canta Minha Terra” é uma história sobre a floresta, mas damos-lhe uma voz e uma personalidade, a árvore fala. É sobre a terra, as pessoas, a comunidade, atravessar fronteiras.
Portanto há uma dimensão social na vossa música, de sensibilização?
Manteiga: Sim, é a nossa responsabilidade, enquanto artistas.
Spoek: Mas é também fantasia e arte. Quando as pessoas falam sobre nós podem falar sobre as canções de protesto, política, social. Mas há também a fantasia e a arte.
Esta semana tocam em Lisboa, para quem nunca viu, como é que funciona ao vivo?
Aero: Não queremos estragar a surpresa.
Manteiga: Há muita energia, como quando vês um actor ler as palavras de um guião, ele levanta as palavras da página, e nós estamos a levantar as notas da pauta.
Spoek: Ao vivo é o ambiente ideal onde a nossa música deve estar, com o volume bem alto.
Manteiga: Há muitas músicas que se não forem tocadas alto, ficam a perder. Já ouvimos o nosso cd no carro e não soa tão bem, precisamos de pôr o volume mais alto e aí sim, já se aproxima mais à nossa música. Tocámos há umas semanas no Porto e foi mágico, estavam cerca de 20 mil pessoas e estavam todas numa espécie de transe, foi fantástico ver e sentir aquilo.
Spoek: E a maior parte daquelas pessoas nunca tinham ouvido falar de nós, mas a experiência ao vivo pode ter um impacto diferente.