Vem chegando aos poucos, com aquele atraso bom que ninguém se importa por ter de esperar. Vem de uma ilha perdida, afortunada, onde reina uma voz que é tão múltipla, quanto bela.
Train on the Island, o quinto registo de estúdio da neozelandesa Aldous Harding, lançado pela 4AD, sedimenta a sua posição como uma das arquitetas sonoras mais enigmáticas da folk contemporânea. O disco afasta-se dos dias de sol que ainda vamos vivendo e recolhe-se na penumbra de uma outra estação sonora. É um trabalho profundamente poético, contemplativo e, acima de tudo, outonal. Preparem material incandescente, amigos leitores, para os frios que chegarão a seu tempo, e comecem já a acender o fogo lento que Aldous Harding nos oferece a cada nota deste Train on the Island. O tempo dos agasalhos melódicos há-de surgir, e é bom estarmos preparados.
Antes mesmo de ouvirmos o disco, a capa fez com que soassem bons alarmes relativos a imagens que temos acumuladas nas nossas memórias fotográficas. Há ali um piscar de olhos (mesmo que não propositado, como é óbvio) a Remain In Light, dos Talking Heads, imagem essa que foi uma das primeiras da história de capas de álbuns a ser manipulada por computador. Estávamos no início dos anos oitenta e os estudantes de arte Tina Weymouth e Chris Frantz, auxiliados pelo designer gráfico Tibor Kalman, trataram de fazer dela, da capa, uma obra de arte icónica. Feito o sublinhado em jeito de rodapé fora de sítio, voltemos ao disco que aqui nos traz.
Ouvir as dez canções deste alinhamento, todas de seguida, é uma longa caminhada rumo à solidão e ao encantamento. As canções parecem estar de mão dadas, percebendo-se que aquilo que se canta não é para grandes plateias. As multidões não gostam que lhes segredem monólogos que parecem desenterrados de diários esquecidos numa gaveta do passado. E, para além das palavras, a instrumentação funciona como uma névoa que se vai dissipando devagar, quase parando, revelando estruturas musicais intencionalmente despidas e vulneráveis. Há, em tudo, uma espécie de câmara lenta artística, uma roupagem sonora que cai, deslizando aos poucos, sobre o corpo da voz nua da cantora. E isso, convenhamos, é muito bonito e comovente. Vai sendo tão distinta, de faixa para faixa, a voz de Aldous Harding, que esse é um outro motivo de encantamento adicional.
A essência outonal do álbum parece residir numa certa aceitação da perda e na beleza do despojamento. Faz lembrar o verso “Today I am / A small blue thing”, de Suzanne Vega. A jornada começa com “I Ate the Most”, uma abertura que se comporta como um primeiro vento frio de outubro, estabelecendo um compasso arrastado, onde cada acorde parece uma gota de chuva pesada a bater no vidro. E “bate leve, levemente”, chamando por quem a queira ouvir. Nós quisemos e continuamos a querer muito. É a introdução ideal para um registo que não tem pressa de chegar, porque parece não ter grande vontade de se dirigir a lado algum em particular.
Logo de seguida, o single “One Stop” surge com uma cadência rítmica invulgarmente direta, guiada pela bateria precisa de Sebastian Rochford. No entanto, a aparente simplicidade pop é enganadora. A canção move-se com o balanço mecânico e melancólico de um metrónomo antigo, enquanto a voz de Harding se molda como fumo de lareira que sobe no ar frio, entre o cinza e o tom azulado, ora densa e telúrica, ora fina e prestes a quebrar-se no ar. O fantasma noturno de Fiona Apple anda por aqui, pairando.
O coração contemplativo do disco bate com mais força na faixa-título, “Train on the Island”. Com mais de cinco minutos de duração, a canção é uma planície coberta de geada. Nela, há um som etéreo e atmosférico que flutua sobre uma linha de baixo minimalista, criando um espaço sagrado, onde o silêncio é tão importante quanto as notas tocadas. As transições vocais de Harding já não procuram alguma vertente teatral de outros temas, mas sim uma modulação quase vegetal, folhas que mudam de cor no mesmo ramo onde florescem.
Em “Venus in the Zinnia”, uma colaboração íntima com H. Hawkline, a doçura acústica contrasta com o ambiente hermético do álbum. As vozes cruzam-se como ramos nus que se tocam no inverno (o outono parece ter já ficado para trás), entoando uma melodia folk que evoca velhas baladas esquecidas pelo tempo. Harding escreve com a precisão de quem grava, a canivete, memórias importantes na casca de uma árvore antiga. Não há pressa em entregar refrães fáceis. Em vez disso, temas como “Worms” ou “Coats” oferecem fragmentos de imagens que ecoam no silêncio, moldados com o cuidado de um artífice que opera nos vazios da penumbra.
Train on the Island é mais uma prova de que a contenção pode ter uma força avassaladora. Train on the Island não é um comboio em alta velocidade, mas uma composição antiga, quase arcaica, que avança vagarosamente por carris cobertos de musgo, atravessando uma ilha onde o tempo parece suspenso. É um monumento à melancolia luminosa e à beleza das pequenas coisas que resistem à grandeza e ao aparato de muita da música que hoje se faz por aí. Não é de hoje, esta música, mas também não é de ontem. Talvez por isso possa vir a ser uma música para sempre.