Uma misturada de influências orientais e ocidentais resultou neste excelente Ai Ga Nakucha Ne, disco de culto de 1982, que merece ser descoberto.
Akiko Yano já não era novata na música em 1982. Este é aliás o seu sexto disco. Sempre marcada por uma influência muito grande do jazz e folk japonês, que ainda hoje se nota nos mais recentes trabalhos dela, em 1981 tinha editado o primeiro trabalho com a produção de Ryuichi Sakamoto, já que ela colaborava com os Yellow Magic Orchestra desde o final dos anos 70, em tournées e coros.
Este Ai Ga Nakucha Ne espraia-se confortavelmente no avant pop com toques de jazz e de eletrónica, e graças à reedição de 2021 pode agora chegar com todo o seu esplendor a novos ouvidos, já que o álbum foi originalmente lançado apenas no Japão.
E para os fãs dos Japan, a instrumentalização não soa de todo estranha. Isto é porque o produtor (e marido de Akiko Yano) Ryuichi Sakamoto, gravou com a banda de Mick Karn, Steve Jansen e David Sylvian nos estúdios AIR de Londres. E ainda contou com colaborações de outros membros dos Yellow Magic Orchestra, numas partes do disco gravadas no Japão.
É que Sakamoto já tinha participado em Gentleman Take Polaroids (na canção Taking Islands in Africa) e depois de os Japan terem gravado Tin Drum em 1981, os japoneses descobriram que era mais barato gravar em Inglaterra, com o engenheiro dos Japan, Steve Nye.
Este tipo de colaborações de lugares distantes não era comum, e ainda para mais em 82, ainda por cima porque o alcance deste Ai Ga Nakucha Ne foi limitado ao mercado japonês, sem ter tido edições noutros países.
O álbum é uma pérola a descobrir, ainda que tenha algumas quebras que o impedem de ser incrível. É só muito bom. As camadas sonoras estão todas onde deviam, com o baixo fretless a pontuar o disco, que junto aos sintetizadores de Sakamoto e Yano e a bateria de Jansen, que nunca soa fora do lugar, criam uma atmosfera sensível e artística.
A primeira canção, em inglês e japonês, algo que marca este álbum, é a faixa título, e traduz-se por “tem de haver amor” (there must be love, como canta Yano no refrão) é perfeita e as comparações sónicas a Japan e também a Kate Bush (culpa dos agudos de Yano), são incontornáveis, apesar de conseguirem o feito de soar a uma coisa diferente destas comparações. Na canção seguinte, “Kanashikute Yarikirenai”, Akiko Yano entoa de uma forma mais ao estilo da folk japonesa em termos de inflexões vocais e o sintetizador Prophet de Sakamoto assombra toda a canção. Soa indiscutivelmente japonês mas também moderno. De seguida aparece “What’s Got In your Eyes?”, outra excelente balada, que não estranharia se fosse apresentada como uma canção do catálogo de Kate Bush.
Algumas das músicas servem mais de interlúdio, como “Oishii Seikatsu” ou a mais tradicional “Michi de Battari”, que acabam por quebrar um pouco a excelente onda que tinham as três primeiras canções, ao soarem inesperadamente fora do lugar, especialmente ao ser seguida de um tema fortíssimo, “Onnatachiyo Otokotachiyo”.
Na sétima canção, “Aisuru Hito Yo” entra naquilo que hoje consideramos city pop, com toques a YMO, é praticamente toda com sons eletrónicos, feedback, bips e boops. Também destoa um bocado do que estávamos a ouvir até aqui e ser um bocadinho repetitiva, mas compensa com a quantidade de experimentalismo.
Os pontos fortes deste Ai Ga Nakucha Ne na estão na primeira, sexta e na oitava canções. “Onnatachiyo Otokotachiyo” soa funky e electro-pop cheio de camadas e “Sleep On My Baby” tem tudo para ser um hit. Coros e baixo de Mick Karn e a tal voz a lembrar Kate Bush.
Já a chegar ao fim do álbum, “Another Wedding Song” afinca-se nos loops e numa entoação vocal mais jazzística, com Harumi Hosumo (dos YMO) no baixo e esta onda mais jazz/avantgarde prossegue com “Donnatokimo Donnatokimo Donnatokimo”.
E é ao piano que termina o disco, com Yano e David Sylvian numa balada mágica intitulada “Good Night”.
Mais tarde, Akiko Yano irá centrar-se mais no piano e no jazz, lançando discos até à atualidade, mas em 82 ainda está dedicada a experimentar sons e estilos. Pouco depois deste disco Yano teve o seu segundo filho, o que limitou a capacidade de viajar e limitou a artista ao Japão. Ficámos todos a perder mas agora vamos a tempo de a descobrir.