Um sinal de que Greg Anderson e Stephen O’Malley estão próximos, com as suas guitarras, os seus robes e os seus 354 mil amplificadores (mais coisa, menos coisa), a estalar.
É difícil escrever sobre algo que não se viu. Muitas das vezes posso chegar atrasado e perder artistas de abertura ou posso estar distraído e perder uma ou outra música da banda principal e, por isso, não o faço. Mas aqui não. Meti-me numa fila mesmo às 21h, extremamente transpirado, vindo de Sete Rios após uma viagem de quase cinco horas. Assim que cheguei ao bar da República da Música, encontrei o pessoal com quem tinha combinado e ainda nos mudámos para a misteriosa mezzanine onde, surpresa, não estava quase ninguém.
O que é de estranhar, porque a vista era ótima. Dava para ver todos os amplificadores dos sunn O))) e mais alguns. Pelo menos, até o nevoeiro das máquinas alemãs da Smoke Factory cobrirem tudo. A partir daí, quase que seria de esperar que os fantasmas de John Carpenter ou os tentáculos de Stephen King nos agarrassem.
Na verdade, em Alvalade, o que agarrou aquela multidão à pinha foi o poder e criatividade que a dupla de capuzes fabrica, afincadamente, com as suas guitarras e os seus amplificadores cuja marca dá o nome à banda. É algo que não pode ser experienciado em disco ou quantificado de qualquer outra forma. Trata-se de uma experiência musical (para alguns) que cavalga toda a sua força bruta contra a caixa toráxica e os tímpanos de um frágil indíviduo. E fazem isto desde 1998.
Talvez seja o meu ouvido destreinado e destruído, mas mal consegui perceber onde é que uma das quatro músicas acabava e a outra começava (isto é um elogio). Deixei-me apenas levar por um longo e espesso caminho de lava eletrónica enquanto várias imagens e pensamentos abstratos vinham até mim. E, se tudo isto parecer um pouco psicadélico e bizarro, bem-vindos ao poder imediato dos decibéis de sunn O))) – que da última vez em solo nacional, no Amplifest, conseguiram separar o trigo do joio na sala 1 do Hard Club em 45 minutos.
Pode não ser a ligação mais imediata, mas O’Malley e Anderson são de Seattle, Washington, estão na Sub Pop, já tocaram com Joe Preston, fizeram um álbum com os japoneses Boris (cujo nome é uma homenagem aos Melvins) e têm um fã em Kim Thayil, dos Soundgarden, que usa tshirts da banda e que os já caracterizou como não sendo sequer rock n’ roll (isto também foi um elogio). Greg Anderson também disse, sendo fã de material mais acelerado quando era mais jovem, que a “Nothing to Say” dos Soundgarden foi um exemplo mais lento que lhe ficou particularmente no ouvido. Onde é que esse álbum foi lançado? Na Sub Pop. Como é que eu cheguei aos sunn O))))? Através da participação do Kim Thayil no Altar. Está tudo ligado, meus amigos. Está tudo ligado.
O que não estava bem ligado na República da Música era o ar condicionado, o que contribui ainda mais para o meu psicadelismo. A certo ponto do arrebatamento sónico, tentei perceber a que ponto do concerto é que a poça de suor do meu braço se iria juntar à poça de suor do meu torso na minha t-shirt amarela berrante dos Acid Mothers Temple.
É com muito gosto que digo que foi mesmo no final do concerto. Já após as luzes passarem a verde e não se ver vivalma, tal não era a quantidade de nevoeiro à frente do palco. Uma distinção de guerreiro sónico, penso eu. Ou, pelo menos, de uma transpiração em excesso. Tal como o meu corpo, e tal como a lotação da sala, fiquei para lá de esgotado depois do concerto. Portanto, é de surpreender que ainda tenha ido para o RCA, na rua ao lado, para um DJ set de The Cure, tocado a um volume tão baixo que não incomodaria a vizinhança mais rezingona. Ou talvez só se estivessem a precaver depois dos sunn O))) lhes terem rachado a porcelana toda.
Fotografias de Pedro Roque, gentilmente cedidas pela organização


























